Mapa Pericópico
David
Karnopp
1.
Ano da Igreja:
O Ano da Igreja é dividido em parte
festiva e parte não festiva. É também dividido em três ciclos: ciclo do Natal,
da Páscoa e Ciclo da Igreja. Metade do ano a igreja leva as pessoas a refletir
sobre o nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus e o envio do Espírito
Santo. A outra metade a igreja enfatiza os temas do discipulado cristão em
termos de fé e vida. O ano da igreja está centralizado na vida e obra de Cristo
e quer mostrar que Jesus é o Senhor da história.
O ponto de partida do calendário é a
Ressurreição do Senhor Jesus, pois ela é o centro da fé cristã e de toda a vida
da igreja e é a festa maior do cristianismo. A Páscoa é o eixo central sobre o
qual se move o Calendário.
O calendário da igreja oferece uma visão
completa dos principais acontecimentos bíblicos e de tudo aquilo que Deus fez
por nós. Ele também quer mostrar que estes acontecimentos e os grandes feitos
de Deus no passado, ainda hoje são atuais. O ano da igreja quer levar o povo de
Deus à olhar para cruz de Cristo e impedir que outros assuntos desviem este
olhar.
2.
Lecionário
A forma mais concreta de marcar o
calendário da igreja na vida do povo de Deus é através do sistema de trechos
selecionados da Escritura que levam o nome de “lecionário”, do latim “lectio”
que significa “leitura”. Há duas séries
de leituras mais usadas, a Tradicional e a Trienal. Enquanto a Tradicional é a mesma para todos
os anos a Trienal muda a cada três anos. A série de leituras oferece uma visão
geral da Escritura e de todo plano de Deus para a nossa salvação.
O uso de perícopes evita a repetição de
assuntos, mas também pode criar outros problemas. Perícope é um termo de origem grega que significa “cortar ao
redor”. Cortar é preciso, porém, esta prática também pode cortar um contexto
anterior e posterior muito rico.
O
costume de adotar textos selecionados para o culto vem desde o antigo povo de
Israel. Aos sábados e dias de festas, nas
sinagogas, eram lidos textos previamente escolhidos. O próprio Senhor Jesus leu um texto numa
sinagoga. No Novo Testamento o hábito de ler textos escolhidos prosseguiu. E a
igreja cristã, ao longo de sua história adotou vários sistemas de
leituras. Hoje o sistema mais conhecido
no mundo cristão é o Lecionário Trienal. Qual é a sua origem?
No
início da década de 1960, estudiosos católicos da liturgia elaboraram um
lecionário trienal atendendo às propostas de reformas litúrgicas do Concílio
Vaticano Segundo. Na década de 70,
algumas igrejas protestantes dos Estados Unidos e Inglaterra fizeram revisões
deste lecionário e o adotaram para os seus cultos. Em 1973 a série trienal foi adotada pela
igreja luterana do Estados Unidos. Em 1982 a LCMS promoveu uma nova revisão e o
publicou no Lutheran Worship.
Em 1983
uma Comissão ecumênica Norte Americana de liturgia e textos publicou o
Lecionário Comum. Alguns anos depois esta comissão retrabalhou esta série e em
1992 publicou o Lecionário Comum Revisado (LCR).
A LCMS
não adotou integralmente o LCR por julgar que textos importantes haviam sido
omitidos. Assim a Comissão de Cultos da LCMS revisou o Lecionário e o publicou
no Lutheran Worship.
Desde o
primeiro domingo de advento de 2008, a IELB adota o Lecionário Trienal
Revisado, que é a revisão que a LCMS empreendeu, para o qual a Comissão de
Cultos da IELB fez pequenas alterações.
3.
Objetivo do Lecionário
À
rigor todo pregador usa um lecionário, seja de sua escolha pessoal ou de
escolha da sua denominação. Ambas as situações podem reduzir a visão homilética
do pregar e da sua denominação ao seu círculo eclesial e fugir do espírito de
unidade em torno da Palavra.
O
lecionário trienal visa conexões mais amplas. Ele tem o propósito de mostrar
todo plano da salvação de Deus. Ele fornece, para cada culto, um tema Cristocêntrico
para impedir que assuntos seculares se tornem o conteúdo central do culto. Cada
culto celebra e recapitula a história da salvação e cada culto visa mostrar a
caminhada de Jesus rumo à cruz, à ressurreição e à subida ao céu.
Isso nos leva a perguntar: Onde o
lecionário quer chegar? Qual é a mensagem que ele está transmitindo? O lecionário trienal tem nexo vertical, onde
verifica-se a semelhança do tema entre as séries. Também tem nexo horizontal,
onde verifica-se uma progressão de um domingo para o outro. De outro modo
podemos dizer que o lecionário apresenta a obra do Filho de Deus desde a
profecia sobre o seu nascimento até o seu reinado na Glória Eterna.
4. As
leituras
No culto
geralmente são lidos quatro textos bíblicos. Primeiro um salmo. Ainda que o
salmo seja uma leitura da Bíblia, não é chamada de “leitura bíblica”, pois ele
é usado como um louvor do povo à graça que Deus oferece. Mas não só isso. A
leitura do Salmo pode oferecer apoios interessantes para a pregação.
Na
sequência vem a primeira leitura, que geralmente é um texto do Antigo
Testamento, mas há ocasiões em que também se lê o livro de Atos dos
Apóstolos. A leitura do
Antigo Testamento com frequência oferece um pano de fundo para outro texto do
dia.
A
segunda leitura geralmente é um texto de uma epístola, mas há ocasiões em que
se lê o livro de Atos dos Apóstolos ou de Apocalipse. A epístola quase sempre é uma leitura
seriada, que nem sempre harmoniza com o tema do dia, porém costuma servir como o horizonte para a igreja. Já a leitura de Atos exemplifica
a vida da primeira comunidade cristã.
Em seguida vem a leitura do Evangelho.
No centro dele está o próprio Senhor Jesus, ora falando, ora sendo um relato
sobre sua vida e obra. Por isso
considera-se o Evangelho a leitura mais importante. E, para enfatizar sua importância no culto, é
interessante que seja lido pelo pregador e ouvido de pé. Os oficiantes
assistentes e leigos, poderão ler a primeira e a segunda leitura.
As três
leituras abordam três aspectos diferentes: Os profetas, os apóstolos e o Senhor
Jesus. Elas permitem uma linguagem bastante
uniforme para dentro e para fora igreja.
Considerando que muitas das igrejas tradicionais de todo o mundo adotam o
mesmo Lecionário, ele acaba favorecendo o espírito ecumênico.
Nem
sempre há um tema único entre os textos. E nem sempre a conexão entre
os textos é óbvia. Pelo menos um deles foi escolhido para reforçar o
outro, o que geralmente acontece entre Antigo Testamento e o Evangelho.
No
período de três anos o lecionário foca o Ano A em Mateus, o Ano B em Marcos e o
Ano C em Lucas. O Evangelho de João, pela sua ênfase na cristologia, é o
que “visita” os outros, aquele que socorre, principalmente nas grandes festas.
Podemos dizer que João conversa com os outros evangelhos no conjunto do
lecionário.
5.
Sobre qual texto pregar?
Por ser Palavra de nosso Senhor ou
referir-se a ele, a preferência recaí sobre o Evangelho, principalmente na
parte festiva do calendário. No Advento, pelo seu caráter profético, pode ser
significativo pregar sobre o texto do Antigo Testamento. Já na Epifania, onde
enfatiza-se o chamado dos profetas e apóstolos pode ser interessante uma
abordagem conjunta das três leituras. No
período da Páscoa, a pregação sobre Atos dos Apóstolos é significativa para
mostrar a ação e crescimento da igreja, a partir da Ressurreição.
Sermões não textuais ou palestras e
estudos em lugar de sermões se encaixam melhor na parte não festiva da igreja.
Uma ênfase exagerada no Lecionário pode
gerar a “pericopite”, mal que consiste em enxergar apenas as perícopes,
sem levar em conta outros eventos, como, por exemplo, aniversário de
Congregação. O mesmo mal acontece, quando textos são tirados de um contexto
maior. Acabam assumindo vida própria.
5. A Leitura dos Textos:
O
lecionário é para ser lido por uma pessoa e ouvido pela congregação. É
importante que se leia com clareza. É a palavra de Deus que está sendo lida. A
congregação está recebendo o conteúdo da leitura?
A leitura da Palavra de Deus no culto é
um momento de grande importância, pois nada é mais relevante do que aquilo que
Deus tem a nos dizer e oferecer. É nas leituras que Deus fala de si mesmo e de
como quer que nos relacionemos com ele e com o próximo. Sem a Palavra de Deus o
culto não subsiste.
É
importante não omitir leituras, pois as quatro leituras são uma sincronia para
se ter uma abrangência maior possível da Escritura. O conjunto das leituras nos
permite ver, de forma mais ampla, que Deus é o mesmo ontem hoje e sempre. Como
diz o apóstolo Paulo: “Porque tudo o que está nas Escrituras foi escrito para
nos ensinar” (Rm 15. 4).
As
leituras também poderão ser usadas como parte devocional em reuniões de
diretoria, de comissões ou de departamentos. Os participantes poderão ser
desafiados a descobrir os temas em comum que os textos abordam. Isso poderá
ajudar o pastor a estabelecer o tema do culto. As leituras também poderão ser
usadas em visitas pastorais, onde o pastor poderá apontar para o tema do culto.
E, como forma de retomar o culto, os membros poderão ser incentivados a lerem os
textos em casa novamente. Isso servirá especialmente como consolo para momentos
difíceis da vida.
Bibliografia
https://lecionario.com/apresentando-o-lecion%C3%A1rio-comum-revisado-7b017e8ea380.
Acessado em 25/05/2020
Karnopp David As leituras do Culto. Mensageiro Luterano Novembro de 2009 Editora
Concórdia Porto Alegre
Karnopp David Os leitores do Culto Mensageiro Luterano
Junho de 2009 Editora Concórdia Porto Alegre
Karnopp David. A Dinâmica
do Culto Cristão. Porto Alegre: Concórdia Editora: 2003
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