Primeiro é um privilégio falar a um grupo tão seleto assim. Entendo, também, que tenho um grande desafio! A ideia aqui não é desconstruir o que temos, nossos valores teológicos, nossas práticas, nossas perspectivas, enquanto líderes em nossas congregações e paróquias. Partimos do ponto de vista de que temos diferentes formações e aptidões, embora tenhamos recebido a mesma formação teológica, independentemente de qual seminário da igreja estudamos, São Paulo, Porto Alegre ou São Leopoldo. O conteúdo teológico, nossa base doutrinária, nossas afirmações de fé, etc. dificilmente abriremos mão, por estarmos conscientes de suas verdades, vistas sob olhar bíblico e das nossas confissões.
O que justifica, então, o tema Desafios do ministério pastoral para nós neste momento? Significa um olhar para o horizonte, fazer uma leitura da nossa realidade e perceber que temos uma teologia sólida numa sociedade em mudança (e agora ainda mais, devido à pandemia) o que demanda uma reflexão séria, madura, a fim de continuarmos cumprindo com o nosso papel de líderes da igreja (pastores) e levar Cristo para todos.
Ou seja, estamos sinalizando para uma análise no que diz respeito à forma do cumprimento de nossa missão, a missão da igreja. Entender um pouco este processo facilitará a nossa intervenção dentro da igreja, quebrando, se necessário, paradigmas, a fim de construirmos uma abordagem do evangelho que venha ao encontro das necessidades dos nossos membros.
Nossos objetivos gerais, portanto, são estes:
Atentar para as mudanças da sociedade que nos desafiam às novas demandas de ação.
Refletir sobre a nossa ação se ela corresponde às expectativas da congregação.
Identificar alternativas de ações que não descontruam a teologia, mas que a torna mais dinâmica e eficaz (relevante).
Pedimos, então, coragem para estudar e refletir sobre este assunto e disposição para redirecionar, se for preciso, a fim de continuar levando o genuíno evangelho de Jesus às pessoas.
A partir dos objetivos gerais abordados acima, construímos algumas expectativas para o tema, os quais destaco a seguir:
- Motivar (para que haja entusiasmo) para a auto avaliação e realização de um trabalho mais ativo;
- Facilitar uma atmosfera de credibilidade àquilo que a igreja deseja realizar;
- Capacitar tendo em vista as mudanças que estão acontecendo nas igrejas e na sociedade em geral. A igreja está consciente de sua missão? Como se dá a relação da igreja com a sociedade?
- Identificar os passos a serem seguidos.
- Fomentar o sentido de como uma boa liderança pode contribuir para todo este processo.
Ao levantar estas expectativas, o intuito é para que saiamos de uma relativa zona de conforto para a diferente realidade que está à nossa porta. Concluo esta introdução, afirmando: O pastor não deve ficar na mesmice: subir e descer do púlpito. Há muito por fazer.
1. A igreja e a pós modernidade
Uma sociedade em mudança
Já estamos em 2020 e o cenário mundial desde o início do século se caracteriza pela competitividade, serviços, tecnologia e globalização. Há uma expectativa de que 2% das pessoas viverá de agricultura, 22% viverá do setor industrial e 30% viverá de serviços. As mudanças serão rápidas e profundas em todos os sentidos. Em 10 anos estaremos utilizando 50% de bens e serviços que ainda não foram inventados. Há uma expectativa muito grande quanto ao que vai acontecer pós pandemia. Os produtos de hoje ficarão rapidamente obsoletos. Vamos pensar um pouco o que significa estes últimos 15 anos (Fitas, CD’s, DVD’s, Pendrive, HD, etc.). Como sobreviver numa época de mudanças rápidas e de grande impacto na sociedade? Falta-nos uma estrutura para interpretarmos o que está acontecendo. A tecnologia veio para ficar e não temos tempo para processar tudo isso. Ou nós entendemos e administramos de maneira adequada ou seremos dominados por ela.
Por isso uma reflexão consciente sobre este tema nos dará nortes em relação ao amanhã. Ao olharmos rapidamente para o significado do PASSADO PRESENTE FUTURO, concluímos que...
É muito importante o presente, onde nos encontramos.
A nossa realidade está no aqui e agora.
O passado já passou.
O futuro no qual prosseguiremos, será decidido hoje.
A nossa única certeza estável é que tudo vai mudar.
Os próximos 5 anos vão mudar mais do que os 30 anos passados.
Então, perguntamos: o que acontecerá no futuro? Ou melhor, quando começa o futuro? Pensemos no mundo de 2030. Isto nos remete a uma análise do nosso comportamento diante das demandas que estão por vir.
Teremos que deliberar sobre três coisas:
1ª o que é essencial – é o que devo fazer imediatamente. É o prioritário. É o que deve ocupar a minha maior atenção.
2ª o que é importante – é tudo aquilo que devo fazer, depois de haver feito o que é essencial.
3ª o que é acidental – é tudo aquilo que devo fazer, depois de haver feito o que é importante.
Precisamos estabelecer hoje o que vamos fazer de essencial em nossas vidas e em nossa profissão. A questão é de valor. O que devo atacar primeiro? Como líder, o pastor deve confrontar o problema. Devo convocar a igreja (convencer) para as mudanças necessárias. A igreja deve planejar.
Penso que o assunto é bem mais complexo do que imaginamos. Lidamos com pessoas com perfis diferentes. Mas, ao mesmo tempo, lidamos com o sagrado, conteúdo divino, que é a razão primeira do ser igreja. Diante disso levantamos questões, como exemplo: Quero que a igreja cresça? Quantas novas pessoas? Outra questão: Como lidar com a Mordomia cristã? Fazer um fórum de mordomia, um curso é suficiente? O que eu quero para a minha congregação? Para a minha realidade de trabalho? Por isso é fundamental um bom planejamento, partindo da comunidade. Estabelecer metas (alvos) e estar preparado para os percalços que também vão acontecer.
Qual o propósito, a missão da nossa igreja? Por que existimos? Vou usar a sigla PESCAR neste momento. Ela sinaliza a refletir sobre as funções da igreja, que já fazem parte do nosso entendimento. A igreja está consciente dos valores, visão e de sua missão? O princípio é a verdade, a Bíblia. Vejamos, então...
1ª missão: Pregação (P) – o crescimento da igreja depende de como isto é encarado.
2ª missão: Ensino (E) – cada igreja tem a sua estratégia. Os professores devem estar preparados.
3ª missão: Serviço (S) – a partir da necessidade de dentro para fora. – diaconia.
4ª missão: Comunhão (C) – através do culto (koinonia). Deve ser muito bem elaborado.
5ª missão: Adoração (A) – a igreja é lugar para louvor.
6ª missão: Reconciliação (R) – o homem com Deus. Uma nova criatura.
Sempre temos oportunidades para refletir sobre as funções da igreja. Temos um bom material sobre este assunto. Mas, eu pergunto: como nós, pastores, lidamos com isso? Qual a energia que dispensamos sobre estas funções? Penso que não há como enfatizar uma função em separado das outras, enfatizando mais uma do que outra, porque elas se inter-relacionam. Enquanto “departamentalizamos” as funções da igreja, nós fragilizamos a sua ação (um corpo precisa funcionar integralmente). A impressão é de que burocratizamos o planejamento com muitas ações e nos frustramos por não atingirmos os alvos.
A igreja está preparada para as mudanças? Ela continua sendo uma instituição estruturada e capacitada, para servir as pessoas... de dentro, de fora. Ponto final. A igreja local é a reunião das pessoas salvas. Por isso, dar de si antes de pensar em si é o princípio cristão que vai reger a ação da igreja.
Características da pós modernidade
As mudanças na sociedade atual são visíveis a todos. São transformações rápidas e significativas em todos os setores da sociedade e nos afetam nas áreas social, econômica, cultural e religiosa, refletindo no nosso modo de pensar, agir e nos comunicar. Esta era que estamos vivendo, chamada de pós modernidade (alguns até chamam de pós-pós), iniciou na década de 50 e ganhou um impulso na década de 70. É um período que se caracteriza pela invasão da tecnologia eletrônica, da automação e da informação. Dentro desta “invasão da informação”, um fato que nos chama a atenção em especial são as mídias (redes).
E neste contexto está a igreja. Como ela lida com o ensino, por exemplo? O modelo educacional, ao que parece, contrapõe ao modelo de educação cristã, desenvolvido pela igreja. Lidamos com verdades absolutas sobre pecado, graça, queda, perdão, salvação, etc., as quais são inquestionáveis. O desafio é ensinar a um público que lida com outro referencial teórico no seu dia a dia, caracterizado pelo construtivismo e relativismo. Tornar a mensagem relevante nestas situações deve demandar uma leitura adequada da realidade em que vivemos e construir o pensamento junto com o indivíduo. Uma pergunta para reflexão: precisamos nos adaptar a esta realidade, assumir este modelo educacional, construir a reflexão teológica junto com o indivíduo, ou vamos manter um padrão tradicional de ensino e educação cristã?
As mudanças na sociedade requerem do indivíduo uma adaptação. Novos paradigmas surgem, o que sinaliza novos formas de intervenção. O sujeito vai se adaptando em meio às suas necessidades, mesmo que para isso tenha que romper com suas tradições e cultura. Não se trata apenas de um paralelismo, usar uma linguagem similar, mas de adesão a novos elementos que vão compondo ao novo modelo de sociedade, que continua sendo mutante de uma forma bem acelerada, assumindo nova roupagem num curto espaço de tempo. São os novos paradigmas sendo formados.
Como exemplo disso, podemos citar a família atual que é bem diferente do passado. O processo educativo no lar mudou. Também mudou na escola. E a igreja, como lida com isso?
Outro exemplo: Os trabalhadores de hoje também têm uma rotina diferente do que tinha no passado. Seus desafios, dramas, mercado de trabalho, tudo isso fez com que tomassem novos rumos em sua forma de trabalhar, inclusive sendo impulsionados a buscarem por uma formação mais adequada, o que envolve tempo, dinheiro e novas relações com a família e também com a igreja.
Podemos, então, resumir as características da pós modernidade, no que segue: indiferença, relacionamentos superficiais, consumismo, relativismo (O problema da “relativização” é que evangelizar é pregar o absoluto. Por exemplo, salvação só em/através de Jesus Cristo. Isto é absoluto, não se negocia. Entretanto, o que estamos vivendo agora neste século o que se prega é que tudo é relativo), antropocentrismo.
Como vemos, então, o homem e a mulher do nosso tempo dentro deste contexto da pós modernidade? Observamos características de ateísmo, materialismo, satanismo, ceticismo, o endeusamento do homem (o corpo, as emoções, o sexo, a sabedoria). Este é o ser humano a ser alcançado pela pregação do Evangelho.
Não podemos nos esquecer de que o homem é o mesmo de todos os tempos. Ele adquire novas concepções de certo e errado à medida que o tempo passa. A própria sociedade é responsável por colocar novos valores para a modernidade e o indivíduo vai agregando estes valores à sua vida e neste sentido o desafio para a evangelização é ainda maior, tanto por parte da igreja como dos cristãos individuais.
A igreja na cidade
As estatísticas revelam que mais de 80% da população brasileira está morando em centros urbanos, independentemente se em grande ou pequena cidade. A cultura da cidade, acompanhada ao movimento dos avanços tecnológicos, bem como as facilidades dos bens de consumo, tem deixado o indivíduo diante de muitas opções. Suas escolhas passam a ser a partir daquilo que lhe dá maior prazer. Então ele prefere ficar 2hs no cinema, com as cadeiras especiais, sem ter que se envolver com nada do que ficar 1 h na igreja, sentado naqueles bancos duros, abrir o hinário, etc. Ou, como o ser humano já é mais individualista, ele escolhe atividades que possa usufruir sozinho ou com um grupo seleto de amigos. A experiência da comunidade não lhe atrai. Ele aparece quando há um batizado, confirmação, casamento ou mesmo um velório, mas não se identifica muito.
Mas o indivíduo da cidade também tem seus dilemas. O próprio êxodo de pessoas em busca de alternativas para sobrevivência contribui para uma concentração excessiva de pessoas, muitas sem preparo, escolaridade, profissão ou condições mínimas de sobrevivência digna na “metrópole” que assusta, intimida, mas, pelo menos por um tempo, parece ser a melhor alternativa, pois isso envolve sonhos, expectativas e esperança.
O desafio para a evangelização na cidade exige boa percepção e qualidade da ação pastoral e da igreja, pois o contexto urbano é muito inconstante, o público é muito diverso, com particularidades que precisam ser levadas em conta. É necessário quebrar a indiferença e procurar responder com seriedade às angústias e clamores das pessoas em vista de novas possibilidades de vida digna e solidária.
O ministério do futuro
Diante disso como pensar o ministério pastoral dentro do contexto atual e futuro? Esta, talvez, seja a maior questão que precisamos refletir, resolver e redirecionar nossas ações, se for preciso. A mensagem sempre deverá ser relevante, especialmente quando estamos diante da realidade onde a maioria tem acesso à informação. Numa fração de segundos o indivíduo tem acesso a milhões de informações sobre qualquer assunto. Como a maioria tem e usa internet, isso se torna muito rápido.
Alguns aspectos precisam ser refletidos. Vamos a eles:
Bíblia online – pedimos para desligar o celular na igreja, mas as pessoas não carregam mais a Bíblia. Tem online. Entramos numa crise pessoal porque acreditamos que o valor está na letra, no livro em si. Imaginamos que se você manuseia algo, terá mais chances de entender melhor.
Mensagens / culto online – Todos estamos vivendo este desafio e este é um campo que precisa ser analisado. Os cultos online (antes da pandemia) surgiram a fim de preencher o vazio de muitos que não acreditam na igreja como organização, mas que continuam tendo sua fé em Jesus. O que torna diferente para nós estar na igreja (templo), no espaço de culto e estar diante de uma tela de computador/celular? Como será isso após a Pandemia?
Instrução online – no corre-corre onde as pessoas têm pouco tempo, devido as condições de trabalho, seria este um caminho para instrui-las na fé? Seria possível fazer estudo bíblico online com membros da igreja? ou instrução de adultos? E confirmandos? Hoje isto é uma prática, devido ao contexto de pandemia. Mas, é conveniente que continue depois?
Reuniões virtuais. Estamos lidando com assuntos relacionados ao andamento da igreja. Até onde podemos exercitar parceria, comunhão?
A tecnologia veio somar? Ou tomar o lugar? Ou veio acomodar?
O ministério do futuro está tão próximo quanto o minuto seguinte. As demandas requerem uma atenção especial e urgente. Precisamos sinalizar para onde vamos e até que ponto estamos prontos para romper com paradigmas até então cristalizados. Ao mesmo tempo precisamos nos perguntar se vale a pena e se a igreja está preparada para isto, especialmente os seus pastores.
Diante da proposta em refletir sobre o ministério do futuro, cabe-nos refletir sobre o nosso entendimento de comunidade hoje, mesmo que seja de forma utópica. A sociedade nos dias atuais tem se caracterizada pela construção da individualidade. Mesmo que teoricamente se tenha a consciência de que o indivíduo necessita um do outro, os avanços tecnológicos e midiáticos têm feito um contraponto a esta necessidade de se viver junto, compartilhando das mesmas coisas. Em seu lugar, especialmente em razão da busca pela sobrevivência, somos levados a viver sozinhos diante das máquinas, sejam estas industriais, de comunicação e entretenimento entre as pessoas.
Diante deste quadro está a igreja que tem como proposta agregar, partilhar experiências de fé e vida e o faz através de suas atividades, sejam elas de culto, estudo bíblico ou outros grupos.
Afinal, o que é comunidade? De que assunto estamos tratando? Desde que o indivíduo se entende como gente ele vive em grupo. Hoje vemos muitos tipos de comunidades, inclusive virtuais. São pessoas que curtem os mesmos ideais, tem os mesmos propósitos e vivem de acordo com as regras estabelecidas. Aliás, são as regras que vão indicar quem está ou não inserido naquela comunidade.
2. Diagnosticando a partir da nossa práxis
Desafios para os temas atuais; uma leitura contextual
A comunidade vai se adaptando ao seu tempo ou mesmo construindo novos paradigmas para as gerações futuras. Ao lançar os novos alicerces daquilo que é novo, isso indicará o rumo no qual esta sociedade está seguindo. Seria isso um evoluir da sociedade ou uma adequação ao seu tempo? Esta questão remete ao questionamento de como a sociedade é influenciada ou se torna protagonista das transformações trazendo novos temas a serem estudados. São novos valores e conceitos, somados ao desenvolvimento natural do ser humano que no seu intelecto vai descobrindo novas possibilidades de se viver.
O que está claro, no entanto, é que os novos desafios para a sociedade abrangem toda a esfera humana e condiciona o indivíduo a buscar por respostas às questões levantadas. Estes questionamentos fazem parte de um processo natural para o indivíduo e não existe respostas pela metade.
Nossas estatísticas
Se observarmos os relatórios estatísticos da IELB temos o seguinte percentual:
Em cultos – 32%, significa 68 % ausentes.
Em Santa Ceia – 26,3%, significa 73,7 % não participantes.
Em estudos bíblicos – 3,8% (do total de membros) – 96,2% não participa.
Jovens - ? Servas - ? Crianças - ? Leigos - ?
Lembrando que estes grupos são as “comunidades”. O que efetivamente acontece para que este número seja tão baixo? Mensagem irrelevante? Sintomas da pós-modernidade? Quais são os reflexos disso na vida das pessoas? Das famílias? Da igreja? Como pastor, quais tem sido nossas estratégias para aumentar este percentual?
Minhas argumentações:
Podemos fazer várias leituras sobre este assunto, mas precisamos ser honestos em admitir também nossas lacunas como dirigentes espirituais.
Um princípio básico sobre o nosso chamado ao ministério pastoral e nossa ação na busca pelos ausentes: Começa em Deus, através de nós.
Ele chamou Moisés e disse: vai livrar o meu povo...
Deus chamou Isaias... Jeremias... Jonas... e os enviou.
Jesus chamou os doze...
Deus chamou Paulo...
Deus chamou a mim... você.
Diz a Bíblia que eles são “como ovelhas sem pastor”.
E quanto a nós, Deus nos capacitou com dons e formação.
Somos servos, despenseiros, recebemos o ministério da reconciliação.
Somos os sacerdotes do século 21, diante de Deus. Ele não esqueceu desta gente. Ele mandou a nós.
Ser pastor, antes de ser profissão, é chamado divino. Lidamos com o sagrado, com questões espirituais.
Nós nos perdemos quando queremos governar a igreja, como lideres, materialmente falando.
Levando em conta o grande número de ausentes (estatística), afirmamos:
Na parábola da ovelha perdida (Lc 15.3-7) eram cem ovelhas, uma faltou. Noventa e nove ficam no aprisco e o pastor foi em busca da que se perdeu e ficou feliz em trazê-la de volta. As noventa e nove estavam seguras. Uma estava em perigo. Teoricamente, quem vem ao culto regularmente, participa da Santa Ceia, está seguro. Mas quem está afastado, está em perigo. Isso motiva o pastor em busca-la. As estatísticas são um reflexo de quantas estão em perigo.
Não temos como nos cansar. Elias esmoreceu. Deus até enviou pássaros para alimentá-lo (1 Rs 17.1-7). Os discípulos, após uma noite frustrada em sua pescaria, esmoreceram, mas Jesus disse: Joga as redes novamente (Lc 5.1-11). Os pastores esmorecem, mas Jesus diz: Ela está se perdendo. Vai de novo em sua busca.
Temos muito a fazer, alguns afirmam. Mas nós fomos vocacionados e chamados por Deus a princípio não para escrever um sermão ou estudo bíblico, mas para buscar a ovelha perdida. Isto é o ministério pastoral.
Os baixos percentuais da participação há muito tempo estão no mesmo patamar, o que significa, também, que há muito tempo estamos usando estratégias que não estão dando resultado ou não estamos cumprindo com a nossa função: a de ser pastor, não da igreja (denominação), mas de ovelhas. O nosso foco não está na organização, mas em pessoas. Parafraseando Mt 24.1,2: “Que belas construções!” (dimensão material). Jesus responde: “Derrubo e levanto em três dias” (dimensão espiritual). Este é o foco de Jesus.
No nosso cotidiano nos queixamos, afirmando: “quando a bomba estoura, você procura o pastor”. Se nós somos os últimos a saber é possível que não temos acompanhado passo a passo da ovelha. Um pai que tem a notícia ruim de seu filho é porque não o acompanhou mais de perto.
Talvez você vai dizer: é impossível isto. Como posso acompanha-lo de perto? Ingenuidade! Seu pensamento é igual ao de Moisés que quer fazer e julgar tudo. Foi necessário o seu sogro, Jetro, adverti-lo e sugerir que nomeie auxiliares (Ex 18). Talvez aqui o Jetro seja eu dizendo a você (e a mim mesmo): nomeie auxiliares.
Podemos mapear estratégias em como acompanhar as ovelhas de perto: Telefone, E-mail, Watsapp, Facebook, Instagram, Visitas pastorais, Visitas por outros membros, Apadrinhamento – jovens, casais, novo membro, etc., Receber/cumprimentar as pessoas quando chegam ao culto, Lista de aniversariantes, Atenção aos enfermos, idosos, Etc.
3. Possibilidades de intervenção
Papel da liderança
Nesta área de intervenção, após uma análise de conjuntura social, cultural e religiosa, voltamos ao princípio básico que é o da liderança eficaz. De tempos em tempos somos levados a repensar o nosso modelo de liderança. Novos líderes surgem e trazem consigo expectativas no seu modo de agir, também os seus valores e acúmulos. Lembrando que a maioria dos líderes de hoje é formado por pessoas ainda muito jovens, que cresceram dentro deste contexto de mudança rápida. Em alguns momentos isso até gera tensões. Pastor e liderança perdem de vista o anúncio do evangelho, acusando-se mutuamente, onde os dois grupos, ao que parece, têm o seu valor e contribuição. Afinar o discurso e a prática parece ser imprescindível visando o bem da comunidade, tornando-a relevante para o seu tempo.
O líder, portanto, tem a função de planejar, executar e avaliar. Para a sua liderança precisará, naturalmente, de habilidades:
Técnica – não podemos ter pessoas medíocres – palavra, música, motivacional, etc. O treinamento visa dar qualificação técnica.
Humana – relacionamento interpessoal. Como é sua personalidade? É bom buscar o equilíbrio.
Conceitual – saber fazer uma leitura do seu tempo, valores da moral, ética, etc.
O novo paradigma da administração voltada para o futuro tem como característica...
Tanto na teoria quanto na prática, ela deve definir os resultados que espera alcançar e, depois organizar os recursos visando obter esses resultados.
Manter a equipe motivada e comprometida durante suas realizações.
O líder tem consciência de sua vocação. Há um ditado que diz: O segredo dos que triunfam são os que sempre começam de novo. Por isso, não se esqueça de que quando você der orientações às pessoas, quando desafiá-las a usar os seus talentos e lhes der autonomia para atingir a meta, você contribuirá para alcançar os seus objetivos (o sucesso).
Que mudança almejamos?
Esta pergunta se torna relevante a partir do momento em que percebemos que há um movimento na direção de mudanças. Insistir num modelo que supostamente não garante mais bons resultados é decretar a falência da prática teológica. Manter um paradigma, se este não corresponde mais ao momento atual, é “malhar em ferro frio”. O resultado é um ministério sem desafio, sem vida e que facilmente leva o indivíduo à frustração. O ministro sofre e a igreja caminha na mesma direção. Que mudanças almejamos?
Primeiramente a nossa! De tempos em tempos somos levados à reflexão sobre como encaramos o ministério pastoral. Por isso levanto tópicos para reflexão:
Vida devocional
Vida familiar
Descanso / lazer
Nosso tempo
Nosso preparo das atuações
Nossa formação
Como encarar o ministério pastoral.
Qual a nossa intimidade com Deus? Afinal somos sacerdotes, profetas, pastores...
Nossas leituras (literatura)
Somente depois de refletir sobre como encaramos a nossa vocação pastoral (sacerdotal) é que podemos pensar sobre as mudanças em relação à congregação. Elas dependem de um posicionamento nosso. Destaco:
Equipar – formar liderança
Se inovar, sem medo
Mudar a estrutura, se necessário.
Dar tempo ao tempo.
Então, como exemplo, como podemos nos posicionar a respeito de alguns assuntos?
Liturgia – um novo modelo, no telão, muitas imagens, mesmo conteúdo?
Sermões - uma vez que estamos no tempo com muitas atividades, é prudente nos acomodarmos ou podemos fazer diferente? Nossas mensagens são técnicas, teológicas e estruturadas. Mas, elas são relevantes? Tocam o coração das pessoas?
Cultos – duração, horários, etc.
Considerações finais
Com o tema Desafios do ministério pastoral, o objetivo é despertar os pastores a refletirem e se posicionarem diante da realidade atual da sociedade em que vivemos. Tenho consciência de que os padrões teológicos e confessionais são imexíveis, mas a forma de como eles são “entregues” à igreja vai depender da habilidade do pastor, levando em conta a sua leitura e análise de conjuntura.
Não precisamos ter medo de mudar paradigmas cristalizados. O evangelho é para ser relevante a todos, conforme Paulo afirma: “Sou um homem livre; não sou escravo de ninguém. Mas eu me fiz escravo de todos a fim de ganhar para Cristo o maior número possível de pessoas” (1 Co 9.19).
Acredito que chamar a nossa liderança para uma reflexão e planejar juntos é mais do que uma orientação, é um habitus practicus que vai sinalizar positivamente para onde vamos e construir juntos o caminho em como chegar lá.
Finalizo como poema Pensamentos (para refletir):
Vigie seus pensamentos, porque eles se tornarão palavras;
Vigie suas palavras, porque elas se tornarão atos;
Vigie seus atos, porque eles se tornarão seus hábitos
Vigie seus hábitos, porque eles se tornarão seu caráter
· Como a missão de Deus e o Reino de Deus se relacionam?
· Qual a visão de Deus para o seu Reino? O que ele quer?
· Qual nosso papel na missão dentro do Reino de Deus?
· Como Igreja, estamos indo na direção certa da visão de Deus?
Com certeza, muito do que vamos falar neste momento vocês já sabem e ensinam. Mas sempre é bom falar sobre a visão do Reino de Deus e sobre a missão que Deus nos deu. É sempre bom pensar em novas maneiras de compartilhar a visão e a missão do Reino de Deus com outras pessoas.
E isso é bom porque podemos perder o foco. Nossas palavras sobre a missão de Deus nem sempre são demonstradas em nossas vidas, principalmente porque nos ocupamos demais com outras coisas. Isso nos impede de ser e permanecer focados na missão de Deus. Sempre é bom reorientar nossas vidas na visão e na missão do Reino de Deus.
1. A visão de Deus: restabelecer o Reino de Deus (restaurar todas as pessoas e todas as coisas para si) – Gênesis 1-3; Apocalipse 21-22
Vamos voltar ao livro de Gênesis, capítulos 1-3. O que Deus queria desde o começo? O que podemos aprender com a história da criação sobre a visão do Reino de Deus e por que a visão de Deus agora é restaurar seu Reino e restaurar todas as coisas para si mesmo? Deus querer restabelecer seu Reino significa que algo no Reino original de Deus se perdeu. Qual era a visão original de Reino que Deus tinha para o mundo e para o ser humano?
O tempo não nos permite ler os capítulos 1 a 3 de Gênesis neste momento, mas vocês já leram esses capítulos muitas vezes. Pelo que lembram dessas palavras, o que podemos aprender sobre Deus? De maneira especial, por que Deus criou o mundo e o universo? Poderíamos responder que foi para mostrar seu poder e glória, para que o louvemos e adoremos. Mas existe ainda outra razão.
Por que uma pessoa constrói uma casa? Para que tenha um lugar para morar. Por que Deus criou o mundo? Para que as pessoas que ele iria criar tivessem um lugar para morar. Deus queria criar pessoas e criou primeiro um lar para elas.
Nós temos filhos porque queremos ter filhos, não porque precisássemos deles ou porque é fácil ter e criar filhos. Deus também não precisava de nós para ser Deus, ou seria insuficiente sem nós. Ele nos criou porque nos queria.
Isso leva a outra coisa que aprendemos sobre Deus na história da criação: Ele é pessoal. Deus não queria ser Deus sozinho, queria ser Deus para alguém. Ele queria ser nosso Pai, queria ter filhos, queria alguém para amar, com quem se relacionar.
Sempre que pensamos no Reino de Deus, muitas vezes pensamos no GOVERNO de Deus. E como rei, Deus certamente governa, e está acima de toda a sua criação. MAS DEUS QUER FAZER MAIS DO QUE APENAS GOVERNAR. O REINO DE DEUS É UM REINO DE RELACIONAMENTOS! Deus nos criou para um relacionamento com ele! Podemos ilustrar isso com uma seta vertical.
Como sabemos disso? Pelo fato de ele ter nos criado e por causa do como nos criou.
Primeiro, Deus nos criou à sua imagem. Ele nos fez para sermos como ele, para que o pudéssemos conhecer, entender, nos comunicarmos com ele, amá-lo e sermos amados por ele; enfim, para nos relacionarmos com ele.
E segundo, Deus nos criou com suas próprias mãos. Deus nos criou de maneira diferente do restante da criação, que ele fez existir ao falar. O ser humano ele formou com suas próprias mãos a partir da terra.
Pense em Deus ajoelhado, nos moldando com suas próprias mãos. Uma imagem muito íntima. Mas é mais íntima ainda, pois Deus soprou seu próprio fôlego em nós; e a simples terra, em forma de ser humano, começou a viver. Temos o sopro de Deus. Adão foi muito especial. Deus criou Adão para ter um relacionamento com ele.
Mas há mais uma coisa que mostra Deus nos criando para um relacionamento com ele, outra coisa que Deus deu ao homem. Escolha. Deus deu a Adão a liberdade de escolher, dando-lhe a ordem de não comer do fruto da árvore no meio do jardim. E por que isso é tão importante? Você pode ter relacionamento com alguém quando não há escolha?
A decisão divina de dar a Adão e Eva uma escolha foi a escolha mais difícil que Deus fez, mas ele realmente não tinha escolha senão a de dar ao ser humano a possibilidade de escolher, pois o que ele queria era estar em relacionamento com sua criatura especial.
Deus só poderia ter um relacionamento conosco se também fosse possível para nós escolhermos não ter um relacionamento com ele. Deus não criou robôs. Não era isso que ele queria. Ele queria pessoas com quem pudesse ter um relacionamento; para ser seu Pai e seu REI, e para elas serem seus filhos e seu POVO. Esta foi a VISÃO DO REINO de Deus.
Mas não termina aí. Deus não apenas quer ter um relacionamento conosco, mas também nos criou para nos relacionarmos uns com os outros.
Gênesis diz que, no sexto dia, Deus olhou para sua criação e viu que tudo era bom, mas havia uma coisa na criação que não era boa. O homem estava sozinho. Ele olhou para Adão e disse: "Ele é como eu, mas não tem alguém como ele." E assim, pegou uma costela de Adão e criou Eva. Ele os criou para um relacionamento um com o outro. Esse relacionamento mútuo pode ser ilustrado com uma seta horizontal.
Deus é um Deus pessoal, mas também é um Deus generoso. Ele não deixou Adão sozinho. Compartilhou Adão com Eva, e ambos tiveram o livre arbítrio de escolher estar em relacionamento com Deus e um com o outro.
Deus nos criou para o relacionamento com ele e nos criou para o relacionamento uns com os outros. Podemos ilustrar isso sobrepondo as duas setas.
É interessante pensar que este pode ser o primeiro lugar em que vemos a cruz na Bíblia, não nos evangelhos, mas no livro de Gênesis! Certo, a Bíblia não diz isso, mas você já se perguntou por que Deus fez nossos corpos na forma de uma cruz? Por que Deus fez o ser humano da forma que somos? Será que Deus nos fez na forma de cruz para nos lembrar, todos os dias, que fomos criados para o relacionamento com ele e para o relacionamento uns com os outros?
E isso foi o "Éden"! Um Deus perfeito em um lugar perfeito, onde pessoas perfeitas viviam em um relacionamento perfeito com Deus e entre si, uma perfeição que deveria durar para sempre! Esse era o Reino de Deus. Era isso que Deus queria.
Não sabemos exatamente quanto tempo durou este estado de perfeição, mas parece que muito rapidamente Deus perdeu o que havia criado e desejado. Adão e Eva logo usaram seu livre arbítrio, sua escolha, para desobedecer a Deus, para escolher NÃO ter um relacionamento com Deus. ESCOLHERAM A SI MESMOS E, ASSIM, ESCOLHERAM ESTAR ISOLADOS DE DEUS. Perderam o relacionamento com Deus e um com o outro. Escolheram a si mesmos.
E o que aconteceu? A cruz foi quebrada e destruída. Quando Deus veio para estar com Adão e Eva, eles se esconderam de Deus e sentiram culpa, vergonha e medo. Em suas mentes, Deus se tornou seu inimigo.
A quebra do relacionamento com Deus logo se manifestou no relacionamento mútuo, pois Adão e Eva começaram a culpar um ao outro, acusar um ao outro, rejeitar um ao outro, machucar um ao outro.
É por isso que Deus odeia o pecado. O pecado destrói relacionamentos. O pecado ainda destrói relacionamentos. O pecado fez Deus perder o que queria, estar com o ser humano.
E o que Deus fez? Ele mudou? O que Deus queria mudou? Não, não mudou. Ele ainda quer um relacionamento conosco e que nos relacionemos uns com os outros. Nós mudamos, mas Deus não mudou.
Por isso Deus faz uma promessa. Em Gênesis 3.15, Deus diz que a descendência de Eva, referindo-se a Jesus, esmagaria a cabeça de Satanás. Jesus seria ferido, mas ainda teria vitória e esmagaria Satanás para tornar possível a reconciliação com o Pai e a restauração do Reino de Deus.
Jesus morreu em uma cruz para restaurar a cruz, restaurar nosso relacionamento vertical, com Deus, e nosso relacionamento horizontal, com as outras pessoas. Todos os pedaços quebrados da cruz são reunidos quando Jesus morreu na cruz. Jesus não apenas morreu na cruz. Ele restaurou a cruz pela morte de seu corpo na cruz.
Esta é a “mensagem da cruz” da qual Paulo fala em 1Coríntios 1, bem como a “mensagem da reconciliação” de 2Coríntios 5. Ambas as expressões estão profundamente ligadas a Gênesis 1-3. A visão do Reino de Deus é a mensagem da cruz e a mensagem da reconciliação. É tudo sobre restaurar relacionamentos.
• Você não pode RESTAURAR o relacionamento com Deus que foi quebrado sem que haja reconciliação.
• E não pode haver RECONCILIAÇÃO com Deus sem perdão.
• E não pode haver PERDÃO sem JESUS CRISTO e o sacrifício que fez na cruz.
A “mensagem da cruz” não é apenas sobre a crucificação de Jesus. Quando ouvimos a expressão “mensagem da cruz”, podemos pensar apenas na crucificação de Jesus, naquilo que ocorreu na cruz. Mas "o corpo não foi feito para a cruz, a cruz foi feita para o corpo". A “mensagem da cruz” não está escrita porque os romanos projetaram uma cruz e a usaram para executar Jesus. A “mensagem da cruz” é sobre a maneira como Deus nos criou e a maneira como Deus nos restaura para si mesmo e restabelece seu Reino. É importante que Paulo use essas duas expressões – a mensagem da cruz e a mensagem da reconciliação, mostrando que a mensagem fala sobre como Cristo restaura nosso relacionamento com Deus e um com o outro, como Cristo nos reconcilia com Deus e uns com os outros.
SE DEUS ESTIVESSE INTERESSADO APENAS EM NOS GOVERNAR, CERTAMENTE NÃO PRECISARIA SACRIFICAR SEU FILHO PARA FAZER ISSO, NEM IRIA QUERER FAZER ISSO. MAS DEUS SACRIFICOU SEU FILHO JESUS, POR CAUSA DO QUANTO ELE NOS AMA E NOS QUER. DE FATO, ELE QUER TER UM RELACIONAMENTO CONOSCO.
E de Gênesis 4 até o final da Bíblia está a história de Deus na MISSÃO de restaurar, de reconciliar – Deus restaurando e restabelecendo seu Reino, RESTAURANDO RELACIONAMENTOS – ao procurar um povo que se relacione com ele pela fé e que se relacione um ao outro com amor, para que Deus possa viver neles e com eles e abençoá-los, e através deles abençoar o mundo. Essa é a visão do Reino de Deus, uma visão que vemos finalmente realizada no livro de Apocalipse 21 e 22.
Vejam Apocalipse 21.3-4: “Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles e será o Deus deles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima. E já não existirá mais morte, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” Isso é o paraíso. O Éden de novo. O Reino de Deus completamente restaurado. Deus morando com seu povo, o que Deus queria desde o princípio, desde o Gênesis.
Lutero, Catecismo Maior, Pai Nosso: "O reino de Deus outra coisa não é senão o que ouvimos no Credo: que Deus enviou ao mundo a Cristo, seu Filho, nosso Senhor, para que nos redimisse e libertasse do poder do diabo e nos levasse a ele e nos governasse como rei da justiça, da vida e da bem-aventurança, contra o pecado, a morte e má consciência”.
Assim, falar da VISÃO DO REINO DE DEUS é falar sobre o que Deus quer: que o Reino de Deus seja restaurado e restabelecido e o mundo seja transformado por seu amor, à medida que seu Reino é restaurado e restabelecido no coração e na vida das pessoas – QUANDO AS PESSOAS SÃO RESTAURADAS NO SEU RELACIONAMENTO COM DEUS.
Aqui é importante uma observação: fiz questão de enfatizar este primeiro ponto porque, muitas vezes, a missão é embasada de forma não evangélica. John Oberdeck, professor do Seminário de Saint Louis, no livro “O curioso caso do jovem Êutico” (nome do livro em português, que fala sobre o trabalho com jovens), faz justamente esta observação. Entre os reformados, normalmente a missão é baseada ou na Grande Comissão ou no Grande Mandamento. Oberdeck diz que sente que o Evangelho se perde na Lei e que falta uma ênfase na Grande Promessa que expressa o amor de Deus, a partir de textos como João 3.16 ou João 11.25-26. “Antes de podermos responder ao Grande Mandamento ou à Grande Comissão”, afirma Oberdeck, “devemos estar fundamentados na Grande Promessa”. Esse é realmente o diferencial luterano na missão.
Nosso Deus de amor está na missão de "reconciliar o mundo consigo mesmo em Cristo" porque assim prometeu! E Deus, por meio de Cristo, nos chama para tomar parte na sua missão de fazer discípulos! Você está reconciliado, é um filho amado de Deus; agora vá e ajude outros a se reconciliarem e restaurarem o seu relacionamento com Deus.
2. A missão de Deus: fazer discípulos por meio de Jesus – Mateus 28.19-20
De acordo com Mateus 28.19-20, a missão de Deus é fazer "discípulos" de 100% das pessoas nesta terra até o fim dos tempos. Discípulos são pessoas que creem, buscam e seguem a Jesus.
Fazer discípulos é a maneira pela qual o Reino de Deus é restaurado e restabelecido no mundo, assim como é restaurado e restabelecido no coração de toda e qualquer pessoa. O Reino de Deus é restaurado e as pessoas, uma a uma, voltam a ter um relacionamento correto com Deus.
Nossa missão é ajudar a conectar as pessoas a Jesus para serem discípulos reconciliados e restaurados em seu relacionamento com o Pai! É a vinda de cada pessoa à fé em Cristo que cumpre a missão.
Deus quer que 100% das pessoas sejam discípulos! Aqueles que têm filhos sabem por quê. Com quantos de seus filhos você quer ter um relacionamento? Com alguns deles? Eu poderia dizer: "Tenho quatro filhos, mas estaria bem se tivesse relacionamento com apenas dois dos meus filhos.” Você diria isso? NÃO! Você gostaria de se relacionar com todos eles. Da mesma forma, Deus quer se relacionar com TODOS os seus filhos.
Deixe-me perguntar: se seu relacionamento fosse rompido com um de seus filhos, o que você faria para restaurar esse relacionamento? Qualquer coisa! Ele é seu filho. E é a mesma coisa com Deus. Ele estava e está disposto a fazer qualquer coisa – até sacrificar seu Filho, Jesus.
Cada pessoa que vemos ou encontramos e que não está em relacionamento com Jesus é alguém por quem Jesus deu a sua vida. Deus quer restaurar seu relacionamento com ela. DEUS QUER TODA SUA FAMÍLIA DE VOLTA!
E isso nos leva ao próximo ponto...
3. A Igreja (você e eu) é convidada para a missão dele – João 20.21; Mateus 4.19
Deus nos convida para sua missão. Deus nos chama, envia e ordena que façamos discípulos. Por isso, algumas perguntas importantes que precisamos fazer são:
• Sentimos o mesmo que Deus em relação aos perdidos?
• Compartilhamos a preocupação divina e o amor de Deus pelos perdidos para sermos discípulos que fazem discípulos?
Essa é a direção que Deus quer que sigamos. Deus não tem outra visão do Reino ou outra missão. Esse é o motivo de estarmos aqui.
• João 20.21: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.”
• Mateus 4.19: “Venham comigo, e eu os farei pescadores de gente.”
• Atos 1.8: "Serão minhas testemunhas..."
• 2Coríntios 5.18,20 "Deus... nos deu o ministério da reconciliação... Portanto, somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por meio de nós."
Somos os convidados, não os donos ou os que tomam a decisão em relação à missão. Deus é o dono da missão; não nós! Ele determina seus limites; não nós! “Deus... deseja que TODOS sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” (1Timóteo 2.3-4). Cristo para todos!
Deus deu Palavra e Sacramentos à Igreja para que a missão seja realizada, pois é com esses meios da graça que o Espírito Santo age para trazer os perdidos à fé.
Nossa igreja ou congregação não pertence a nós ou a nossos membros. Ela pertence a Jesus. Foi ele quem a comprou com seu sangue e a fez existir pelo poder da sua Palavra e do Espírito, e é a ele que respondemos. A Grande Comissão não é algo a ser votado, e devemos liderar de tal maneira que não pareça isso.
É Deus que está em missão, e Deus tem uma visão para essa missão. Deus nos convidou para sua missão e quer semear sua missão no coração do seu povo.
4. A direção da Igreja é para fora – Ezequiel 47.1-12; Mateus 9.35
• Ezequiel 47.1: A água estava correndo para FORA do templo, e não para dentro!
• Atos 1.8: “Serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra.” Lutero e as ondas do Evangelho.
• Mateus 28.19-20: "todas as nações". A terra inteira.
• Mateus 9:35: “E Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doenças e enfermidades.”
Quando lemos Mateus 9.35, vemos com muita clareza que Jesus não esperou que os perdidos o encontrassem. Ele saiu e os encontrou, os conheceu e deixou que o conhecessem. O fato de Jesus ir tornou possível que ele visse as multidões. Porque viu as pessoas e pelo que estavam passando, teve compaixão delas. E por ter compaixão, Jesus respondeu. Ele curou as doenças e enfermidades enquanto pregava as boas novas do Reino. Construiu relacionamentos com as pessoas como a maneira de levá-las a um relacionamento com o Pai.
As pessoas de nossa cidade não existem para encher nossa igreja. Pelo contrário, as pessoas de nossa igreja existem para encher nossa cidade com Jesus Cristo. A igreja realmente não existe para atrair pessoas a ela. Antes, a Igreja, o povo de Deus, existe para atrair as pessoas a Cristo. Não precisamos intensificar a pressão sobre as pessoas de nossa cidade para que respondam aos nossos convites para VIR; em vez disso, precisamos intensificar a inspiração e o poder do Espírito Santo em nós para responder à ordem de Jesus de IR, especialmente se queremos alcançar os que não creem. O objetivo não é levar corpos para dentro de uma construção, mas levar o Corpo de Cristo para as ruas, casas e edifícios de nossa cidade.
Os incrédulos, e enfatizo isso, são alcançados por meio de relacionamentos. Como ter relacionamentos para levar o Evangelho neste momento. Por um lado, estamos afastados das pessoas, mas por outro há situações e oportunidades que nem pensaríamos antes, e não as podemos desperdiçar.
Se os cristãos querem efetivamente alcançar a cidade em que vivem, terão que entrar nela para conhecer a cidade e as pessoas que ali vivem. É preciso relacionar-se.
5. Aqueles que precisam de Jesus são o foco da Igreja – Lucas 19.10
Como Corpo de Cristo, nossa missão é a mesma de Jesus Cristo: “O Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lucas 19.10). Os PERDIDOS são a prioridade! A Igreja existe para crentes e descrentes.
• A Igreja existe para os PERDIDOS, para os descrentes, para que sejam ACHADOS!
• A Igreja existe para os ACHADOS, os crentes, para que sejam ENVIADOS!
Mas a Igreja continua a existir PRINCIPALMENTE para aqueles que ainda não foram alcançados pelo Evangelho. Jesus disse que quando o Evangelho se espalhasse por todo o mundo, então chegaria o fim (Mateus 24.14). O fim virá APENAS depois que a obra estiver completa. O fim ainda não chegou. A única conclusão que podemos tirar é que a obra ainda não está concluída. Ainda há quem precise ouvir o Evangelho.
Aqueles que precisam do Reino são o foco. É deles que Paulo fala em 1Coríntios 9: “Fiz-me tudo para com todos, a fim de, por todos os modos, salvar alguns.” (1Coríntios 9.19-23) Como eu posso me fazer tudo para o outro, senão o conheço, não me relaciono com ele, não sei das suas necessidades ou prioridades?
6. Pastores e membros devem estar juntos na missão de fazer discípulos
Ainda há uma questão que precisamos abordar, ao nos encaminharmos para o final deste momento. A quem é dada a missão de Deus. E a resposta é clara: aos discípulos, aos que já chegaram à fé. Não é exclusividade dos pastores, ou dos não pastores, dos leigos.
A função principal do pastor é:
• Pregar – Romanos 10.14: “como crerão... se não há quem pregue?”
• Visitar os doentes – Atos 6.
• Aconselhar – 2Timóteo 3.16: "útil para a repreensão, correção".
• Edificar o corpo de Cristo – Efésios 4.12 (aperfeiçoar os santos para o desempenho do seu serviço).
• Fazer discípulos que façam discípulos – Mateus 28.19-20.
Tudo isso é muito bom e necessário. Tudo isso Deus pediu que os pastores fizessem. O problema é aquilo que muitas vezes não é mencionado, ou normalmente é esquecido pelas pessoas e pelos pastores, e que os pastores também precisam fazer: ter visão e liderança para ajudar o povo de Deus a trabalhar em conjunto para cumprir a missão de Deus, desenvolvendo outros líderes para que a missão possa ser expandida e estendida. A maioria dos pastores não pensa muito em liderança e visão, menos ainda em desenvolver outros líderes.
Hora do marketing: é por isso que o MML e o PLI existem. É por isso que estou comprometido com o trabalho do MML e do PLI. É para ajudar a responder à pergunta: "Estamos indo na direção certa, a direção da missão de Deus?" É para auxiliar pastores e esposas a desenvolverem a si mesmos e aos dons da sua liderança, para que sejam discípulos que fazem discípulos na missão de Deus. É para que os membros das congregações olhem para o que Deus quer, para a visão de Deus, e para o que Deus faz, a missão de Deus, e coloquem seus dons, seu tempo, sua vida, nesta missão.
É muito bom falar sobre a missão que Deus nos deu. É ótimo pensar em novas maneiras de compartilhar a visão e a missão do Reino de Deus. Precisamos sempre alinhar tudo que fazemos na direção que Deus quer, que é salvar as pessoas, TODAS as pessoas.
A visão é o Reino, o que Deus quer. O objetivo é o relacionamento com Deus e com os outros, aqui e eternamente. A estratégia é a missão, levando uma a uma das pessoas a estarem com Cristo. Os recursos são os meios da graça, que Deus e nós temos em abundância. Os trabalhadores do Reino somos nós, pastores, e as pessoas que Deus colocou sob nossa responsabilidade pastoral. A recompensa, bom, essa eu só consigo imaginar, mas sei que é indescritível e incomparável, como é o amor de Deus em Jesus Cristo.
Diálogo
Oração: HL 329
Em agonia o mundo vai rumando à perdição: angústia, brados, débeis ais demonstram aflição.
Senhor Jesus, aviva-nos em hora tão crucial; Senhor Jesus, à Igreja dá amparo celestial.
Adora as pedras o pagão, das trevas teme o mal; se encolhe a sós na urbana luz vaidoso ser mortal.
Senhor Jesus, desperta os teus a ver o seu pavor; Senhor Jesus, à Igreja dá por eles grande amor!
O entendimento natural procura a Deus em vão. Teu Evangelho em seu fulgor propaga entre a nação!
Senhor Jesus, poder nos dá e à pregação vigor; Senhor Jesus, ativa em nós a fé e o destemor!
Adverte do juízo a voz, e no alto paira a cruz; milhares agonizam já, não vendo a eterna luz.
Senhor, constrange a tua grei a Nova a proclamar; Senhor, aviva a Igreja aqui – em mim vem começar!
Exemplo relacionado à questão de como a missão deve ser central no trabalho da Igreja:
Imagine que num carro estão quatro áreas da Igreja: Programas, Finanças, Relacionamentos e Missão. Qual deve dar a direção, ou seja, ser o motorista da congregação?
Se forem os programas, as pessoas acharão suficientes ir ao culto, estudo bíblico, eventos, etc. O importante é o que acontece lá na igreja.
Se forem os relacionamentos, qualquer desavença entre pessoas pode acabar com o trabalho. E é muito comum haver desavenças na congregação.
Se forem as finanças, pode haver desmotivação para a contribuição financeira à congregação, pois as pessoas estariam ofertando só para manter o trabalho, por necessidade, sem saber para onde a congregação está indo.
Mas se a missão liderar a direção em que a congregação anda, baseada na visão de Deus para a salvação das pessoas, os programas serão projetados missionariamente; os relacionamentos terão por base o compartilhar, o testemunho do Evangelho; e na parte das finanças haverá uma correta motivação, visto que as ofertas têm um propósito claro.
Pastor Rony Ricardo Marquardt
Diretor para a América Latina do Pastoral Leadership Institute
O Ano da Igreja é dividido em parte
festiva e parte não festiva. É também dividido em três ciclos: ciclo do Natal,
da Páscoa e Ciclo da Igreja. Metade do ano a igreja leva as pessoas a refletir
sobre o nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus e o envio do Espírito
Santo. A outra metade a igreja enfatiza os temas do discipulado cristão em
termos de fé e vida. O ano da igreja está centralizado na vida e obra de Cristo
e quer mostrar que Jesus é o Senhor da história.
O ponto de partida do calendário é a
Ressurreição do Senhor Jesus, pois ela é o centro da fé cristã e de toda a vida
da igreja e é a festa maior do cristianismo. A Páscoa é o eixo central sobre o
qual se move o Calendário.
O calendário da igreja oferece uma visão
completa dos principais acontecimentos bíblicos e de tudo aquilo que Deus fez
por nós. Ele também quer mostrar que estes acontecimentos e os grandes feitos
de Deus no passado, ainda hoje são atuais. O ano da igreja quer levar o povo de
Deus à olhar para cruz de Cristo e impedir que outros assuntos desviem este
olhar.
2.
Lecionário
A forma mais concreta de marcar o
calendário da igreja na vida do povo de Deus é através do sistema de trechos
selecionados da Escritura que levam o nome de “lecionário”, do latim “lectio”
que significa “leitura”.Há duas séries
de leituras mais usadas, a Tradicional e a Trienal.Enquanto a Tradicional é a mesma para todos
os anos a Trienal muda a cada três anos. A série de leituras oferece uma visão
geral da Escritura e de todo plano de Deus para a nossa salvação.
O uso de perícopes evita a repetição de
assuntos, mas também pode criar outros problemas. Perícope é um termo de origem grega que significa “cortar ao
redor”. Cortar é preciso, porém, esta prática também pode cortar um contexto
anterior e posterior muito rico.
O
costume de adotar textos selecionados para o culto vem desde o antigo povo de
Israel.Aos sábados e dias de festas, nas
sinagogas, eram lidos textos previamente escolhidos.O próprio Senhor Jesus leu um texto numa
sinagoga. No Novo Testamento o hábito de ler textos escolhidos prosseguiu. E a
igreja cristã, ao longo de sua história adotou vários sistemas de
leituras.Hoje o sistema mais conhecido
no mundo cristão é o Lecionário Trienal. Qual é a sua origem?
No
início da década de 1960, estudiosos católicos da liturgia elaboraram um
lecionário trienal atendendo às propostas de reformas litúrgicas do Concílio
Vaticano Segundo.Na década de 70,
algumas igrejas protestantes dos Estados Unidos e Inglaterra fizeram revisões
deste lecionário e o adotaram para os seus cultos.Em 1973 a série trienal foi adotada pela
igreja luterana do Estados Unidos. Em 1982 a LCMS promoveu uma nova revisão e o
publicou no Lutheran Worship.
Em 1983
uma Comissão ecumênica Norte Americana de liturgia e textos publicou o
Lecionário Comum. Alguns anos depois esta comissão retrabalhou esta série e em
1992 publicou o Lecionário Comum Revisado (LCR).
A LCMS
não adotou integralmente o LCR por julgar que textos importantes haviam sido
omitidos. Assim a Comissão de Cultos da LCMS revisou o Lecionário e o publicou
no Lutheran Worship.
Desde o
primeiro domingo de advento de 2008, a IELB adota o Lecionário Trienal
Revisado, que é a revisão que a LCMS empreendeu, para o qual a Comissão de
Cultos da IELB fez pequenas alterações.
3.
Objetivo do Lecionário
À
rigor todo pregador usa um lecionário, seja de sua escolha pessoal ou de
escolha da sua denominação. Ambas as situações podem reduzir a visão homilética
do pregar e da sua denominação ao seu círculo eclesial e fugir do espírito de
unidade em torno da Palavra.
O
lecionário trienal visa conexões mais amplas. Ele tem o propósito de mostrar
todo plano da salvação de Deus. Ele fornece, para cada culto, um tema Cristocêntrico
para impedir que assuntos seculares se tornem o conteúdo central do culto. Cada
culto celebra e recapitula a história da salvação e cada culto visa mostrar a
caminhada de Jesus rumo à cruz, à ressurreição e à subida ao céu.
Isso nos leva a perguntar: Onde o
lecionário quer chegar? Qual é a mensagem que ele está transmitindo?O lecionário trienal tem nexo vertical, onde
verifica-se a semelhança do tema entre as séries. Também tem nexo horizontal,
onde verifica-se uma progressão de um domingo para o outro. De outro modo
podemos dizer que o lecionário apresenta a obra do Filho de Deus desde a
profecia sobre o seu nascimento até o seu reinado na Glória Eterna.
4. As
leituras
No culto
geralmente são lidos quatro textos bíblicos. Primeiro um salmo. Ainda que o
salmo seja uma leitura da Bíblia, não é chamada de “leitura bíblica”, pois ele
é usado como um louvor do povo à graça que Deus oferece. Mas não só isso. A
leitura do Salmo pode oferecer apoios interessantes para a pregação.
Na
sequência vem a primeira leitura, que geralmente é um texto do Antigo
Testamento, mas há ocasiões em que também se lê o livro de Atos dos
Apóstolos.A leitura do
Antigo Testamento com frequência oferece um pano de fundo para outro texto do
dia.
A
segunda leitura geralmente é um texto de uma epístola, mas há ocasiões em que
se lê o livro de Atos dos Apóstolos ou de Apocalipse.A epístola quase sempre é uma leitura
seriada, que nem sempre harmoniza com o tema do dia, porém costuma servir como o horizonte para a igreja. Já a leitura de Atos exemplifica
a vida da primeira comunidade cristã.
Em seguida vem a leitura do Evangelho.
No centro dele está o próprio Senhor Jesus, ora falando, ora sendo um relato
sobre sua vida e obra.Por isso
considera-se o Evangelho a leitura mais importante. E, para enfatizar sua importância no culto, é
interessante que seja lido pelo pregador e ouvido de pé. Os oficiantes
assistentes e leigos, poderão ler a primeira e a segunda leitura.
As três
leituras abordam três aspectos diferentes: Os profetas, os apóstolos e o Senhor
Jesus.Elas permitem uma linguagem bastante
uniforme para dentro e para fora igreja.Considerando que muitas das igrejas tradicionais de todo o mundo adotam o
mesmo Lecionário, ele acaba favorecendo o espírito ecumênico.
Nem
sempre há um tema único entre os textos. E nem sempre a conexão entre
os textos é óbvia. Pelo menos um deles foi escolhido para reforçar o
outro, o que geralmente acontece entre Antigo Testamento e o Evangelho.
No
período de três anos o lecionário foca o Ano A em Mateus, o Ano B em Marcos e o
Ano C em Lucas. O Evangelho de João, pela sua ênfase na cristologia, é o
que “visita” os outros, aquele que socorre, principalmente nas grandes festas.
Podemos dizer que João conversa com os outros evangelhos no conjunto do
lecionário.
5.
Sobre qual texto pregar?
Por ser Palavra de nosso Senhor ou
referir-se a ele, a preferência recaí sobre o Evangelho, principalmente na
parte festiva do calendário. No Advento, pelo seu caráter profético, pode ser
significativo pregar sobre o texto do Antigo Testamento. Já na Epifania, onde
enfatiza-se o chamado dos profetas e apóstolos pode ser interessante uma
abordagem conjunta das três leituras. No
período da Páscoa, a pregação sobre Atos dos Apóstolos é significativa para
mostrar a ação e crescimento da igreja, a partir da Ressurreição.
Sermões não textuais ou palestras e
estudos em lugar de sermões se encaixam melhor na parte não festiva da igreja.
Uma ênfase exagerada no Lecionário pode
gerar a “pericopite”, mal que consiste em enxergar apenas as perícopes,
sem levar em conta outros eventos, como, por exemplo, aniversário de
Congregação. O mesmo mal acontece, quando textos são tirados de um contexto
maior. Acabam assumindo vida própria.
5. A Leitura dos Textos:
O
lecionário é para ser lido por uma pessoa e ouvido pela congregação. É
importante que se leia com clareza. É a palavra de Deus que está sendo lida. A
congregação está recebendo o conteúdo da leitura?
A leitura da Palavra de Deus no culto é
um momento de grande importância, pois nada é mais relevante do que aquilo que
Deus tem a nos dizer e oferecer. É nas leituras que Deus fala de si mesmo e de
como quer que nos relacionemos com ele e com o próximo. Sem a Palavra de Deus o
culto não subsiste.
É
importante não omitir leituras, pois as quatro leituras são uma sincronia para
se ter uma abrangência maior possível da Escritura. O conjunto das leituras nos
permite ver, de forma mais ampla, que Deus é o mesmo ontem hoje e sempre. Como
diz o apóstolo Paulo: “Porque tudo o que está nas Escrituras foi escrito para
nos ensinar” (Rm 15. 4).
As
leituras também poderão ser usadas como parte devocional em reuniões de
diretoria, de comissões ou de departamentos. Os participantes poderão ser
desafiados a descobrir os temas em comum que os textos abordam. Isso poderá
ajudar o pastor a estabelecer o tema do culto. As leituras também poderão ser
usadas em visitas pastorais, onde o pastor poderá apontar para o tema do culto.
E, como forma de retomar o culto, os membros poderão ser incentivados a lerem os
textos em casa novamente. Isso servirá especialmente como consolo para momentos
difíceis da vida.
Bibliografia
https://lecionario.com/apresentando-o-lecion%C3%A1rio-comum-revisado-7b017e8ea380.
Acessado em 25/05/2020
Karnopp David As leituras do Culto.Mensageiro Luterano Novembro de 2009 Editora
Concórdia Porto Alegre
Karnopp David Os leitores do Culto Mensageiro Luterano
Junho de 2009 Editora Concórdia Porto Alegre
Karnopp David. A Dinâmica
do Culto Cristão. Porto Alegre: Concórdia Editora: 2003
1 Fiel é a palavra: se alguém
deseja o episcopado, excelente obra almeja. 2 É necessário, pois, que o bispo
seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, moderado, sensato, modesto,
hospitaleiro, apto para ensinar; 3 não dado ao vinho, nem violento, porém
cordial, inimigo de conflitos, não avarento; 4 e que governe bem a própria
casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito. 5 Pois, se alguém
não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus? 6 Que o bispo
não seja recém-convertido, para não acontecer que fique cheio de orgulho e
incorra na condenação do diabo. 7 É necessário, também, que ele tenha bom
testemunho dos de fora, a fim de não cair na desonra e no laço do diabo.
Tito 1.5-9
5 Foi por esta causa que deixei
você em Creta: para que pusesse em ordem as coisas restantes, bem como, em cada
cidade, constituísse presbíteros, conforme prescrevi a você: 6 alguém que seja
irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são
acusados de devassidão, nem são insubordinados.
7 Porque é indispensável que o
bispo, por ser encarregado das coisas de Deus, seja irrepreensível, não
arrogante, alguém que não se irrita facilmente, não apegado ao vinho, não
violento, nem ganancioso. 8 Pelo contrário, o bispo deve ser hospitaleiro,
amigo do bem, sensato, justo, piedoso, deve ter domínio de si, 9 ser apegado à
palavra fiel, que está de acordo com a doutrina, para que possa exortar pelo reto
ensino e convencer os que contradizem este ensino.
ORAÇÃO
Querido
Senhor Jesus Cristo, tu és o Supremo Bom Pastor das nossas Almas. És o Cabeça
da Igreja. És a Pedra Angular sobre a qual está edificada a família cristã. És
o Cordeiro de Deus que, com teu sangue carmesim, lavaste nossos pecados. És a
Palavra Encarnada, por cujo poder são salvos todos os que creem. És a Verdade
Suprema, diante da qual se calam todas as mentiras. És a luz que ilumina todo
homem. Nós te louvamos porque vieste ao nosso encontro e doaste a tua vida em
sofrimento amargo e sacrifício cruel. Levaste em teu corpo nossos pecados e,
pelas feridas que lhe foram impostas, nós somos sarados. Eram os nossos pecados
que estavas carregando. Eram nossas dores que suportaste. Os pregos que cravaram
tuas mãos e pés na cruz eram nossos; a coroa que lhe foi colocada na cabeça,
uma demonstração clara do quanto nosso pecado e nossa culpa são grandes. Assim,
decidiste nos redimir na eternidade e realizaste, no nosso tempo, esta obra
maravilhosa, pela qual, todo o que confia em ti é salvo.
Deste-nos
a alegria de termos sido alcançados pelo poder do teu evangelho e, nas águas do
nosso Batismo, unida com a Palavra poderosa, nos deste vida – e vida em
abundância. Não apenas nos salvaste – o que já é sobre-excelente amostra do teu
amor, mas nos congregas na tua Santa Igreja Cristã – A comunhão de todos os que
creem em ti e que te servem piedosa e fielmente, enquanto aguardam tua segunda
vinda. Tens nutrido nossas almas com o teu verdadeiro Corpo e Sangue, realmente
presentes na Santa Ceia. Assim, ao colocares na nossa boca, teu Corpo e Sangue,
em, com e sob o pão e o vinho, nos certificas que o perdão dos pecados é
pessoalmente nosso.
Concedeste
à tua Igreja o maravilhoso presente do Ministério Pastoral, por cujo Ofício,
fazes pregar publicamente teu Evangelho e Administrar corretamente os
sacramentos do Batismo e da Santa Ceia. Tu, que nos chamaste à fé, nos concedes
o privilégio de sermos servos neste Ofício tão singular.
De
nossa parte, confessamo-nos impuros, de corações, mentes e lábios. Nossos
desejos e intenções são maus desde a nossa mais tenra infância. Limitações,
falhas, erros, pecados não nos faltam. Por isso, suplicamos, perdoa-nos sempre.
Lava-nos com teu sangue derramado na cruz. Purifica nossos corações e nossos
lábios, a fim de que se abram para proclamar teus desígnios ao povo que
compraste com teu sacrifício e morte na cruz. Concede-nos humildade e,
diariamente, faze-nos enxergar a sublimidade do Ofício Ministerial para o qual
nos chamaste com a alegria de quem se sabe servo e distinguido em honras para
te servir.
Ajuda-nos
a nos dedicarmos, da melhor maneira, para que exerçamos o Ofício que nos
confiaste com fidelidade. Livra-nos de toda e qualquer leviandade e espírito
mundano, egoísmo e desejo de dominação, insensibilidade e falta de bom senso.
Dá-nos o teu Espírito Santo, sob a leitura constante e diária da tua Palavra, a
fim de que nos saibamos conduzir à testa do teu grande povo.
Face
às demandas multifacetadas do nosso tempo, habilita-nos a instruir, corrigir,
edificar, advertir, vigiar, conduzir, alimentar, orientar as ovelhas do rebanho
que nos confiaste pastorear. Lembra-nos sempre que são tuas ovelhas, compradas
com teu sangue derramado na cruz. Que saibamos nos conduzir, nesses tempos
difíceis, tendo a habilidade de discernir e julgar as doutrinas, evitando as
falsas e ensinando a doutrina verdadeira do teu amor gracioso. Que fujamos da
tentação e do caminho fácil dos modismos do nosso tempo, que tem adentrado para
dentro da Igreja e solapado seus valores.
Que
nós, dia a dia, estejamos conscientes dos privilégios e das responsabilidades
de tão excelente Ofício. Que nos contentemos em ser despenseiros dos teus
mistérios – aqueles que entram, sob tua autorização e ordem, na tua despensa, e
apanha os nutrientes fartos do evangelho e os distribuem nos mais variados atos
do Ofício Pastoral.
Por
fim, perdoa-nos sempre! Ergue-nos, com tua graça! Repara nossas lacunas!
Corrige nossas faltas! Conscientiza-nos da nossa fraqueza e limitação, enquanto
confiamos que nossa suficiência vem de ti. Ajuda-nos a aguardarmos fiéis a tua
segunda vinda, enquanto preparamos para ti um povo que te serve de forma
qualificada e aguarda o dia final. Estaremos na tua Santa Presença e,
receberemos as bênçãos da tua promessa que, os que a muitos tiverem conduzido à
justiça, brilharão para sempre, eternamente. Ouve-nos, bom Pastor Jesus. Amém!
Introdução
Bom
dia. Quero começar esse momento com três frases que me marcam muito:
1 – “Por
séculos, a liturgia, ativamente celebrada, tem sido a forma mais importante de
cuidado pastoral” (J.A. Jungmann. Pastoral
Liturgy – New York: Herder and Herder, 1962, p.380);
2 – “O
culto é o maior aspecto do cuidado pastoral” (W.H. Willimon. Worship as Pastoral Care – Nashville:
Abingdom, 1974, p.47);
3 – A
liturgia é o grande tesouro da Igreja Cristã. Ao longo da história, a Igreja
tem sobrevivido à guerras, conflitos, heresias, perseguições, não apenas
guardando as Escrituras Sagradas do Antigo e Novo testamentos, mas por manter e
preservar os credos, os catecismos, hinário e, em especial, a sua liturgia
(Arthur A. Just. Heaven on Earth: The
Gifts of Christ in the Divine Service. Saint Louis, MO: Concordia Publishing
House, 2008).
Estas
frases não apenas sumariam o olhar que tenho nutrido, ao longo de quase três
décadas de atuação no Ministério Pastoral da Igreja Evangélica Luterana do
Brasil, mas tem norteado o meu dia-a-dia na elaboração de cultos e cerimônias
junto ao Povo de Deus. Com todas as limitações naturais a um ser humano que
consegue ser mais pecador que o apóstolo Paulo, mas com o poder regenerador e
renovador do Batismo, e por toda a valiosa condução e direção do Espírito
Santo, tenho tentado empreender, semana após semana, um grande esforço para
elaborar bem, com zelo e cuidado, o culto que, como “despenseiro do Senhor Deus”
entrego ao Povo de Deus.
Quero
iniciar o nosso momento, citando duas partes da liturgia que mais me tocam,
especialmente pelo seu caráter cristológico e escatológico:
O VERE DIGNO
O.: É verdadeiramente digno, justo e do nosso dever,
que em todos os tempos e em todos os lugares te demos graças, ó Senhor, santo
Pai, onipotente, eterno Deus, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor... Portanto
com os anjos e arcanjos e com toda a companhia celeste louvamos e magnificamos
o teu glorioso nome, exaltando-te sempre, dizendo:
SANCTUS
Santo, santo, santo é o Senhor Deus dos Exércitos.
Os céus e a terra estão cheios de sua glória. Hosana, hosana, hosana nas
alturas. Bendito, bendito, bendito aquele que vem em nome do Senhor. Hosana,
hosana, hosana nas alturas.
1 – O MINISTÉRIO PASTORAL E A LITURGIA
Quando
o pastor Luterano assume seu trabalho, ele tem diante dos seus olhos e no seu
coração que prometeu fidelidade às Escrituras – prometeu considera-las como
fonte e norma de fé e vida. Para evitar as variadas maneiras de compreender as
Escrituras, em nosso sínodo é mister subscrever as Confissões Luteranas,
conforme contidas no Livro de Concórdia de 1580, visto que elas são a exposição
correta da Palavra de Deus.
Essa
subscrição às Confissões não o faz escravo dos ritos, conforme lemos na CA VII,3:
“E para a verdadeira unidade da Igreja
cristã não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes
instituídas por homens”. A Fórmula de Concórdia declara que a congregação
tem o direito de reduzir, aumentar ou modificar cerimônias que servem ao
propósito da boa ordem e da edificação da Igreja (FC, DS, X, 9). Contudo, a
congregação pode requerer que seu pastor use geralmente as cerimônias da Igreja
Luterana e que ele não introduza cerimônias arbitrariamente de acordo com seus
propósitos e caprichos.
O evangelho está ancorado na
história. Deus se manifestou no nosso tempo e revelou a Sua graça e amor
salvadores na história que ele mesmo dirige. Sem dúvidas, a história geral do
mundo pode ser melhor nomeada de história da salvação de Deus que, não apenas
criou o mundo e o preserva, mas que enviou o seu filho Jesus Cristo para, com
seu sacrifício e morte de cruz, sua gloriosa ressurreição dos mortos e
ascensão, e também pelo envio e ação do Espírito Santo que “chama
pelo evangelho, ilumina com seus dons, congrega e santifica toda a Igreja na
terra” (Catecismo Menor, 3º
Artigo). Essa história na qual Deus tem revelado seu poder salvador caminha
para o seu fim – a Igreja militante aguarda, fiel, a segunda vinda do Salvador
Jesus Cristo quando, nos céus, celebrará e jubilará em glória, e nós, que aqui
adoramos ao Senhor Deus, estaremos, definitiva e eternamente, “com
os anjos e arcanjos”, nos céus.
Deus nos chamou para o Santo
Ministério e nos inseriu numa Igreja que considera muito seriamente sua tarefa
de proclamar a “todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.19). E, para
ensinar todo o desígnio de Deus, celebramos a Sua ação entre nós no ano
litúrgico da Igreja. De maneira bem sucinta, pode se dizer claramente que o ano litúrgico,
que tem seu evento principal na Páscoa – a Ressurreição do Nosso Salvador, prende
a Igreja à cruz. Ou seja, o Ano litúrgico da Igreja nos envolve e nos faz
reviver e recontar, sempre de novo, a história da Salvação.
Da mesma maneira, O ano
litúrgico protege a Igreja à intromissão de temas seculares, sociais, pouco
importantes. Mesmo que aproveitemos datas celebrativas, tais como dia dos pais,
dia das mães, dia da Pátria, e outras – e é importante que estabeleçamos um
link entre a palavra de Deus e a vida dos nossos ouvintes, o centro da nossa
pregação e sua principal ênfase,sempre
serão a Ogra Redentora do Nosso Senhor Jesus Cristo.
O Salvador Jesus Cristo
disse: "Eu vim para que tenham vida, e vida em abundancia" (João
10.10). Quando estamos ativamente envolvidos em proclamar esta vida que o nosso
Salvador nos conquistou, temos no ano litúrgico um valioso auxílio. Acompanhar
as leituras propostas e os eventos do ano litúrgico nos fazem percorrer, desde
o nascimento do nosso Salvador, a sua vida, sua morte e ressurreição, sua
gloriosa ascensão e a descida do Espírito Santo, que nos traz todos os
benefícios que Cristo conquistou para nós. Desta maneira, na nossa atividade
pastoral, somos servos de Deus, pelos quais ele serve a vida em abundância às
ovelhas que são dele mesmo.
É grande privilégio e, ao
mesmo tempo, um enorme desafio lidar com o poder gracioso de Deus na pregação
da palavra e na administração dos sacramentos.
O ministério nos propõe o
desafio de levar, com habilidade, o conteúdo do evangelho para as pessoas que
vivem num mundo extremamente conturbado, que está ancorado em conceitos
subjetivos, que cria suas verdades e que baseia-se em princípios absolutamente
líquidos. A igreja não é do mundo, mas está nele!
Mas, o mundo sempre foi mundo.
O que há de novo? Qual é o nosso contexto? Não nos dá a impressão que a Igreja
está cada vez mais amalgamada, amoldada ao mundo? Quais são os valores das
pessoas cristãs hoje? Diferenciam-se muito dos valores de pessoas não cristãs?
Suas prioridades, em geral, não estão contaminadas com as prioridades do mundo?
Ao tempo que a sociedade,
pelos recursos que dispõe, parece poder resolver todas as suas questões, ao
mesmo tempo está errante. Busca uma resposta em fontes que não as satisfazem, mesmo
que estas fontes sejam as mais questionáveis, do tipo das denominações
neopentecostais, cultos esotéricos, filosofias orientais, dos conselhos e
auto-ajuda, espiritismo, cultos afro-brasileiros, entre outros. Ao tempo que
somos uma população, vivemos a solidão, somos aborrecidos por qualquer causa,
ansiosos, deprimidos, pressionados pela culpa.
A boa elaboração do culto é
aquela que faz uma ponte sobre o abismo que separa o mundo afundado pecados ,
por isso, carente da graça de Deus, do Deus que "amou ao mundo tanto que deu o seu
filho unigênito para que, todo o que nele crê, não pereça, mas tenha a vida
eterna" (João 3.16). Nesse sentido, quando o pastor elabora o
sermão, por exemplo, o pensamento central mostra o pastor face ao ensino
principal do texto e, quando elabora o Tema da mensagem, temos o pastor
proclamando esse conteúdo central para o povo de Deus. Quando elabora a
liturgia, o convite à confissão dos pecados procura olhar profundamente para
cada ovelha ferida, maltratada, machucada pelos seus pecados, e visa busca-la,
recuperá-la, confortá-la, “como se o
próprio Cristo tratasse pessoalmente com ela” (Catecismo Menor, Ofício das
Chaves).
Desta maneira, a liturgia
bem elaborada serve para alcançar o homem, cujo contexto de vida é o complexo e
convulsionado, com suas demandas e carências, e colocá-lo diante do Salvador,
que o serve. Não podemos, no sermão e liturgia, nos contentar em dar conselhos
faltos de fundamento, orientações nada cristãs, com uma lista de tarefas do
tipo: "faça você mesmo", um evento que mexa apenas com a emoção e que
não alimenta e não prove sustento. "A fé vem pela pregação, e a pregação pela
palavra de Cristo" (Rm 10.17). A palavra de Cristo é viva,
poderosa. Assim, o sermão e a liturgia, todo o culto, precisam colocar o homem diante
do Salvador, que o serve em lei e evangelho.
Como as pessoas são trazidas
a Cristo? Como são consoladas? Apenas pelo evangelho. O único poder que o
ministro da palavra dispõe é o evangelho. Somente assim, elas são perdoados e a
terapia escatológica final é recebida, o destino eterno é garantido, as
ansiedades aliviadas, o desespero é transformado em esperança e o egoísmo é
transformado em serviço.
O ministério eficaz depende
unicamente dos meios da graça. Por Isso, ao elaborar o sermão e entregá-lo , o
pastor deve poder dizer: Assim diz o
SENHOR. E, ao elaborar a liturgia, o pastor deve ter a tranquilidade de não
ter promovido um espetáculo, um entretenimento, uma sessão de auto-ajuda; mas
que, pela palavra e sacramentos, colocou as ovelhas o Bom Pastor Jesus diante
do Supremo Bom Pastor das suas almas.
O pastor deve ter imenso
cuidado para não adotar métodos, estratégias, maneiras de agir, truques,
tentativas de obter sucesso e notoriedade, sem questioná-los e avalia-los
diante da palavra de Deus. A justificação é santificação vem somente pela
administração fiel da Palavra e sacramentos. O que normatiza o ministério e
nossas ações nele é a Escritura. E, o que é a Escritura? É o registro de Deus
da sua obra da redenção no Cristo crucificado. O apóstolo Paulo resumiu de
forma magistral do que devemos nos ocupar. Ele disse: “Porque decidi nada saber entre
vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1 Co 2.2).
Pregar a palavra de Deus, do
púlpito ou do altar, é mais que sociologia, filosofias. É, isto sim, servir de
despenseiro do SENHOR (1 Co 4.1). Esse privilégio, ele concede aos seus
ministros. Eis porque, as Escrituras Sagradas dizem que “Quem almeja ser pastor, almeja
obra excelente” (1 Tm 3.1).
2 – CUIDANDO DE PESSOAS NA BOA ELABORAÇÃO DO
CULTO
Em tempos corridos, nos
quais as tarefas pastorais são as mais variadas, somos diariamente envolvidos
em atividades que consomem não apenas nosso tempo, mas o vigor, a capacidade de
parar e pensar. O advento do smartphone nos prendeu ainda mais num ativismo
incessante. Estamos, o tempo inteiro, atendendo chamadas, conferindo os grupos
de whatsapp, respondendo a demandas que, em muitos casos, penso que
absolutamente não dizem respeito às nossas prioridades, mas que estão
escancaradas à nossa frente e urgem por resposta.
Nosso dia a dia envolve
visitas, aconselhamentos, atendimentos à pessoas em casa, nos hospitais, a
representação da Igreja nos órgãos públicos, a inserção da congregação na
comunidade local. Tudo isso nos envolve e nos gasta num frenesi intenso.
Por detrás dessa cortina,
quase sempre reluzente, está um pastor que quase não tem tempo para sua devoção
e leitura diária da palavra, não acha boa ocasião para “entregar-se à oração”
(Atos 6.4). O que dizer do tempo necessário para preparo e elaboração dos
estudos bíblicos nos grupos, nos departamentos, para as devoções nas reuniões
de diretoria, o acompanhamento da Escola Bíblica Dominical, o preparo para a
instrução de confirmandos e, por fim, a elaboração do sermão e o preparo do
culto?
Somos “empurrados”, por
fidelidade ao nosso salvador, à busca dos afastados, ao aconselhamento dos
problemáticos, à resposta e solução dos problemas do relacionamento
interpessoal , das crises familiares das ovelhas de Jesus.
No entanto, todas estas
coisas não devem soterrar o maior momento do cuidado pastoral que acontece no
culto. Se, nos atendimentos da semana tivemos a oportunidade de curar pessoas
individualmente, no culto temos a oportunidade de atender às demandas da
congregação que se reúne para também receber a cura das suas feridas, pelo
remédio do evangelho.
É na liturgia, com tudo o
que acontece no culto, que o pastor poderá tratar as feridas das ovelhas de
Jesus e, por isso, sua elaboração precisa de atenção prioritária, cuidadosa,
fiel.
W.A. Clebsch, em sua obra Pastoral Care in Historical Perspective,
aborda quatro aspectos do cuidado pastoral: Curar, sustentar, orientar,
reconciliar. É evidente que pessoas que estão vivendo momentos especiais na sua
vida precisam da atenção individual, particularizada, do pastor. No entanto, no
culto temos o privilégio de fazê-lo diante do povo de Deus reunido. Ali também
estão ovelhas que precisam ser curadas, alimentadas, orientadas, reconciliadas.
J.A. Jungmann, na sua obra “Pastoral Liturgy”, diz que “Por séculos, a liturgia, ativamente
celebrada, tem sido a forma mais importante de cuidado pastoral”. Além
desse aspecto coletivo, a celebração da liturgia servirá como modelo e fonte
para que o pastor administra palavra e sacramentos às necessidades individuais,
quando o mesmo for necessário. O texto do sermão e sua elaboração ao longo da
semana, pode servir de base para um bom diálogo com aqueles que precisam de
atenção particularizada. A confissão de pecados e a absolvição, elaborados para
o culto da Congregação reunida, irá oferecer excelentes nutrientes para o
diálogo com uma ovelha ferida e magoada. O cântico do Gloria, irá auxiliar
aqueles que jubilam e celebram a enaltecer o Deus Triuno pela sua obra da
Criação, Redenção e Santificação. Os hinos do nosso hinário, com sua magistral
poesia, seu conteúdo absolutamente bíblico confessional, suas melodias que
encantam as pessoas, levam muito consolo e conforto aos que sofrem das mais
variadas mazelas ocasionadas pelo pecado, assim como elevam a congregação na
adoração ao Salvador, por causa dos benefícios que lhe foram conquistados. A
mensagem cristã em geral e, a pregação da Reforma Luterana, em particular,
alcançaram, naqueles começos, mais repercussão pelos hinos de Lutero e seus
colaboradores, do que pelos seus sermões. Por mais que há muita música cristã
boa e de alta qualidade fora dos arraiais luteranos, o nosso Hinário Luterano
deveria ser sempre a base para todo o canto e a música da Igreja.
Segundo Norbert Muller e
George Kraus “A liturgia não é uma
alternativa ou um obstáculo ao cuidado pastoral, mas é o principal cimento que
junta os cristãos de todos os tempos à fonte do seu cuidado: Cristo”(P. 86).
Quando elaboramos
criteriosamente a liturgia, pensamos em trazer o serviço de Deus ao seu povo
reunido na Igreja. Nossas ordens, contidas nos hinários e agendas litúrgicas,
não estão aí para serem uma imposição ou regra imutável; mas que nos servem de
valiosíssimo modelo e ordem, a fim de que possamos conservar a riqueza das
verdades bíblicas e comunica-las ao povo de Deus.
Talvez o nosso problema seja
a compreensão da liturgia como um adiáforo, no sentido mais depreciativo ao
qual o termo pode ser considerado, como algo que se pode pegar ou largar ao
prazer da ocasião. Isso tem contribuído imensamente para que o culto e, em
especial, a forma litúrgica, assuma cada vez menos os traços da liturgia
tradicional da Igreja Cristã, despreze a sua herança profunda e rica, e venha a
assumir feições renovadas, avivadas, como as denominações à nossa volta se
expressam.
O contrário disso é verdade:
No culto, nós nos reunimos para receber as dádivas de Jesus na Palavra e
Sacramentos. Ele nos convida e nos serve de maneira rica e maravilhosa nos
meios que ele escolheu. No culto, ele nos faz pensar nos céus não de forma
abstrata; mas, real, concreta, pois ele já está aqui no evangelho que nos é
servido.
Deus não precisa do nosso
culto, mas nós precisamos do Seu serviço, sua presença, sua dádiva do perdão,
vida e salvação. Nesse sentido, precisamos pensar no culto mais como serviço de
Deus como o lugar onde vamos fazer coisas, desenvolver tarefas. Nossos convites
para o culto precisam exalçar cada vez mais os feitos de Deus – precisam focar
cada vez mais no que ele fez e continua fazendo em nós, do que naquilo que
eventualmente podemos fazer. Tudo o que fazemos no culto é receber essas
dádivas maravilhosas e responder ao serviço de Deus por nós, e isso nos é
proporcionado quando se trabalha árdua e qualitativamente para que o culto não
seja um mero entretenimento, ou um evento que mexe com as emoções, que permite
que as pessoas saiam da Igreja vazias, inconsoladas, desorientadas e sem
esperança; ao contrário, “Deus quer ser conhecido e cultuado de forma tal que
dele recebamos benefícios, e os recebamos em razão da sua misericórdia”.
Conclusão
O conceito mais puro de
liturgia é o que Jesus faz pelo seu povo quando ele o reúne nos momentos de
culto público. As Escrituras nos dizem que Jesus se revela na Palavra, no
Batismo e Santa Ceia. A Palavra, o Batismo e a Santa Ceia tem sido
cuidadosamente proclamados e administrados pela Igreja de Cristo, através da
sua forma litúrgica. O princípio lex orandi, lex credendi , que estabelece um
relacionamento estreito entre o culto e o que se crê, serve para nos nortear a
fim de que manifestemos claramente, em nossos cultos, o que, de fato, cremos. Mais
do queatravés de escritos confessionais
ou manuais de dogmática, a doutrina entra e transforma a vida das pessoas
quando elas se reúnem para cultuar e ouvir a palavra de Deus proclamada,
cantada e orada. O culto cristão precisa necessariamente ser uma manifestação
clara, uma amostra límpida da sua pureza doutrinária.
Para que isso aconteça,
faz-se necessário um constante estudo da nossa liturgia a fim de que toda a sua
riqueza seja ensinada e vivida na Igreja hoje, face às mais diversas formas de
cultos em prática hoje. Não importa se o culto promove um inebriante
espetáculo, e se ele envolve os frequentadores, mexendo com suas mais profundas
emoções e sentimentos, se ele não servir à proclamação clara da Palavra de
Deus, na correta distinção Lei e Evangelho, e se não tiver seus holofotes na
administração correta dos Sacramentos do Santo Batismo e da Santa Ceia,
continuará sendo um culto do homem para o homem, que não oferecerá nada mais
que entretenimento, cujos efeitos passam assim que os frequentadores deixam a
porta da Igreja e retornam às suas casas.
Por outro lado, não importa
quão difíceis sejam os nossos hinos, quão destreinado seja o nosso organista,
quão fraco o nosso cantar, Deus está presente na liturgia, onde a Sua Santa
palavra é proclamada clara e puramente e os Santos Sacramentos são
administrados como Jesus Cristo os instituiu.
É claro que, no dia de
Pentecostes, o Espírito Santo não desceu sobre os discípulos, lhes entregando
uma cópia impressa da liturgia histórica da Igreja.A Igreja Cristã adora ao Senhor como o povo
de Deus faz desde o começo dos tempos: Sendo servida pela bondade perdoadora de
Deus, firmada nas promessas da salvação em Cristo Jesus, como estas são
reveladas no evangelho.