quinta-feira, 4 de junho de 2020

A liturgia como ação cura d'almas


A LITURGIA COMO AÇÃO CURA D’ALMAS

 Ref. Sílvio Ferreira da Silva Filho

Leitura dos textos:

1 Timóteo 3.1-7

1 Fiel é a palavra: se alguém deseja o episcopado, excelente obra almeja. 2 É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, moderado, sensato, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; 3 não dado ao vinho, nem violento, porém cordial, inimigo de conflitos, não avarento; 4 e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito. 5 Pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus? 6 Que o bispo não seja recém-convertido, para não acontecer que fique cheio de orgulho e incorra na condenação do diabo. 7 É necessário, também, que ele tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair na desonra e no laço do diabo.

Tito 1.5-9

5 Foi por esta causa que deixei você em Creta: para que pusesse em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísse presbíteros, conforme prescrevi a você: 6 alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de devassidão, nem são insubordinados.

 

7 Porque é indispensável que o bispo, por ser encarregado das coisas de Deus, seja irrepreensível, não arrogante, alguém que não se irrita facilmente, não apegado ao vinho, não violento, nem ganancioso. 8 Pelo contrário, o bispo deve ser hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, piedoso, deve ter domínio de si, 9 ser apegado à palavra fiel, que está de acordo com a doutrina, para que possa exortar pelo reto ensino e convencer os que contradizem este ensino.

 

ORAÇÃO

         Querido Senhor Jesus Cristo, tu és o Supremo Bom Pastor das nossas Almas. És o Cabeça da Igreja. És a Pedra Angular sobre a qual está edificada a família cristã. És o Cordeiro de Deus que, com teu sangue carmesim, lavaste nossos pecados. És a Palavra Encarnada, por cujo poder são salvos todos os que creem. És a Verdade Suprema, diante da qual se calam todas as mentiras. És a luz que ilumina todo homem. Nós te louvamos porque vieste ao nosso encontro e doaste a tua vida em sofrimento amargo e sacrifício cruel. Levaste em teu corpo nossos pecados e, pelas feridas que lhe foram impostas, nós somos sarados. Eram os nossos pecados que estavas carregando. Eram nossas dores que suportaste. Os pregos que cravaram tuas mãos e pés na cruz eram nossos; a coroa que lhe foi colocada na cabeça, uma demonstração clara do quanto nosso pecado e nossa culpa são grandes. Assim, decidiste nos redimir na eternidade e realizaste, no nosso tempo, esta obra maravilhosa, pela qual, todo o que confia em ti é salvo.

         Deste-nos a alegria de termos sido alcançados pelo poder do teu evangelho e, nas águas do nosso Batismo, unida com a Palavra poderosa, nos deste vida – e vida em abundância. Não apenas nos salvaste – o que já é sobre-excelente amostra do teu amor, mas nos congregas na tua Santa Igreja Cristã – A comunhão de todos os que creem em ti e que te servem piedosa e fielmente, enquanto aguardam tua segunda vinda. Tens nutrido nossas almas com o teu verdadeiro Corpo e Sangue, realmente presentes na Santa Ceia. Assim, ao colocares na nossa boca, teu Corpo e Sangue, em, com e sob o pão e o vinho, nos certificas que o perdão dos pecados é pessoalmente nosso.

         Concedeste à tua Igreja o maravilhoso presente do Ministério Pastoral, por cujo Ofício, fazes pregar publicamente teu Evangelho e Administrar corretamente os sacramentos do Batismo e da Santa Ceia. Tu, que nos chamaste à fé, nos concedes o privilégio de sermos servos neste Ofício tão singular.

         De nossa parte, confessamo-nos impuros, de corações, mentes e lábios. Nossos desejos e intenções são maus desde a nossa mais tenra infância. Limitações, falhas, erros, pecados não nos faltam. Por isso, suplicamos, perdoa-nos sempre. Lava-nos com teu sangue derramado na cruz. Purifica nossos corações e nossos lábios, a fim de que se abram para proclamar teus desígnios ao povo que compraste com teu sacrifício e morte na cruz. Concede-nos humildade e, diariamente, faze-nos enxergar a sublimidade do Ofício Ministerial para o qual nos chamaste com a alegria de quem se sabe servo e distinguido em honras para te servir.

         Ajuda-nos a nos dedicarmos, da melhor maneira, para que exerçamos o Ofício que nos confiaste com fidelidade. Livra-nos de toda e qualquer leviandade e espírito mundano, egoísmo e desejo de dominação, insensibilidade e falta de bom senso. Dá-nos o teu Espírito Santo, sob a leitura constante e diária da tua Palavra, a fim de que nos saibamos conduzir à testa do teu grande povo.

         Face às demandas multifacetadas do nosso tempo, habilita-nos a instruir, corrigir, edificar, advertir, vigiar, conduzir, alimentar, orientar as ovelhas do rebanho que nos confiaste pastorear. Lembra-nos sempre que são tuas ovelhas, compradas com teu sangue derramado na cruz. Que saibamos nos conduzir, nesses tempos difíceis, tendo a habilidade de discernir e julgar as doutrinas, evitando as falsas e ensinando a doutrina verdadeira do teu amor gracioso. Que fujamos da tentação e do caminho fácil dos modismos do nosso tempo, que tem adentrado para dentro da Igreja e solapado seus valores.

         Que nós, dia a dia, estejamos conscientes dos privilégios e das responsabilidades de tão excelente Ofício. Que nos contentemos em ser despenseiros dos teus mistérios – aqueles que entram, sob tua autorização e ordem, na tua despensa, e apanha os nutrientes fartos do evangelho e os distribuem nos mais variados atos do Ofício Pastoral.

         Por fim, perdoa-nos sempre! Ergue-nos, com tua graça! Repara nossas lacunas! Corrige nossas faltas! Conscientiza-nos da nossa fraqueza e limitação, enquanto confiamos que nossa suficiência vem de ti. Ajuda-nos a aguardarmos fiéis a tua segunda vinda, enquanto preparamos para ti um povo que te serve de forma qualificada e aguarda o dia final. Estaremos na tua Santa Presença e, receberemos as bênçãos da tua promessa que, os que a muitos tiverem conduzido à justiça, brilharão para sempre, eternamente. Ouve-nos, bom Pastor Jesus. Amém!

 

Introdução

 

         Bom dia. Quero começar esse momento com três frases que me marcam muito:

         1 – “Por séculos, a liturgia, ativamente celebrada, tem sido a forma mais importante de cuidado pastoral” (J.A. Jungmann. Pastoral Liturgy – New York: Herder and Herder, 1962, p.380);

         2 – “O culto é o maior aspecto do cuidado pastoral” (W.H. Willimon. Worship as Pastoral Care – Nashville: Abingdom, 1974, p.47);

         3 – A liturgia é o grande tesouro da Igreja Cristã. Ao longo da história, a Igreja tem sobrevivido à guerras, conflitos, heresias, perseguições, não apenas guardando as Escrituras Sagradas do Antigo e Novo testamentos, mas por manter e preservar os credos, os catecismos, hinário e, em especial, a sua liturgia (Arthur A. Just. Heaven on Earth: The Gifts of Christ in the Divine Service.  Saint Louis, MO: Concordia Publishing House, 2008).

         Estas frases não apenas sumariam o olhar que tenho nutrido, ao longo de quase três décadas de atuação no Ministério Pastoral da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, mas tem norteado o meu dia-a-dia na elaboração de cultos e cerimônias junto ao Povo de Deus. Com todas as limitações naturais a um ser humano que consegue ser mais pecador que o apóstolo Paulo, mas com o poder regenerador e renovador do Batismo, e por toda a valiosa condução e direção do Espírito Santo, tenho tentado empreender, semana após semana, um grande esforço para elaborar bem, com zelo e cuidado, o culto que, como “despenseiro do Senhor Deus” entrego ao Povo de Deus.

         Quero iniciar o nosso momento, citando duas partes da liturgia que mais me tocam, especialmente pelo seu caráter cristológico e escatológico:

O VERE DIGNO

O.: É verdadeiramente digno, justo e do nosso dever, que em todos os tempos e em todos os lugares te demos graças, ó Senhor, santo Pai, onipotente, eterno Deus, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor... Portanto com os anjos e arcanjos e com toda a companhia celeste louvamos e magnificamos o teu glorioso nome, exaltando-te sempre, dizendo:

SANCTUS

Santo, santo, santo é o Senhor Deus dos Exércitos. Os céus e a terra estão cheios de sua glória. Hosana, hosana, hosana nas alturas. Bendito, bendito, bendito aquele que vem em nome do Senhor. Hosana, hosana, hosana nas alturas.

 

1 – O MINISTÉRIO PASTORAL E A LITURGIA

         Quando o pastor Luterano assume seu trabalho, ele tem diante dos seus olhos e no seu coração que prometeu fidelidade às Escrituras – prometeu considera-las como fonte e norma de fé e vida. Para evitar as variadas maneiras de compreender as Escrituras, em nosso sínodo é mister subscrever as Confissões Luteranas, conforme contidas no Livro de Concórdia de 1580, visto que elas são a exposição correta da Palavra de Deus.

         Essa subscrição às Confissões não o faz escravo dos ritos, conforme lemos na CA VII,3: “E para a verdadeira unidade da Igreja cristã não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes instituídas por homens”. A Fórmula de Concórdia declara que a congregação tem o direito de reduzir, aumentar ou modificar cerimônias que servem ao propósito da boa ordem e da edificação da Igreja (FC, DS, X, 9). Contudo, a congregação pode requerer que seu pastor use geralmente as cerimônias da Igreja Luterana e que ele não introduza cerimônias arbitrariamente de acordo com seus propósitos e caprichos.

O evangelho está ancorado na história. Deus se manifestou no nosso tempo e revelou a Sua graça e amor salvadores na história que ele mesmo dirige. Sem dúvidas, a história geral do mundo pode ser melhor nomeada de história da salvação de Deus que, não apenas criou o mundo e o preserva, mas que enviou o seu filho Jesus Cristo para, com seu sacrifício e morte de cruz, sua gloriosa ressurreição dos mortos e ascensão, e também pelo envio e ação do Espírito Santo que “chama pelo evangelho, ilumina com seus dons, congrega e santifica toda a Igreja na terra”  (Catecismo Menor, 3º Artigo). Essa história na qual Deus tem revelado seu poder salvador caminha para o seu fim – a Igreja militante aguarda, fiel, a segunda vinda do Salvador Jesus Cristo quando, nos céus, celebrará e jubilará em glória, e nós, que aqui adoramos ao Senhor Deus, estaremos, definitiva e eternamente, “com os anjos e arcanjos”, nos céus.

Deus nos chamou para o Santo Ministério e nos inseriu numa Igreja que considera muito seriamente sua tarefa de proclamar a “todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.19). E, para ensinar todo o desígnio de Deus, celebramos a Sua ação entre nós no ano litúrgico da Igreja. De maneira bem sucinta,  pode se dizer claramente que o ano litúrgico, que tem seu evento principal na Páscoa – a Ressurreição do Nosso Salvador, prende a Igreja à cruz. Ou seja, o Ano litúrgico da Igreja nos envolve e nos faz reviver e recontar, sempre de novo, a história da Salvação.

Da mesma maneira, O ano litúrgico protege a Igreja à intromissão de temas seculares, sociais, pouco importantes. Mesmo que aproveitemos datas celebrativas, tais como dia dos pais, dia das mães, dia da Pátria, e outras – e é importante que estabeleçamos um link entre a palavra de Deus e a vida dos nossos ouvintes, o centro da nossa pregação e sua principal ênfase,  sempre serão a Ogra Redentora do Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Salvador Jesus Cristo disse: "Eu vim para que tenham vida, e vida em abundancia" (João 10.10). Quando estamos ativamente envolvidos em proclamar esta vida que o nosso Salvador nos conquistou, temos no ano litúrgico um valioso auxílio. Acompanhar as leituras propostas e os eventos do ano litúrgico nos fazem percorrer, desde o nascimento do nosso Salvador, a sua vida, sua morte e ressurreição, sua gloriosa ascensão e a descida do Espírito Santo, que nos traz todos os benefícios que Cristo conquistou para nós. Desta maneira, na nossa atividade pastoral, somos servos de Deus, pelos quais ele serve a vida em abundância às ovelhas que são dele mesmo.

É grande privilégio e, ao mesmo tempo, um enorme desafio lidar com o poder gracioso de Deus na pregação da palavra e na administração dos sacramentos.

O ministério nos propõe o desafio de levar, com habilidade, o conteúdo do evangelho para as pessoas que vivem num mundo extremamente conturbado, que está ancorado em conceitos subjetivos, que cria suas verdades e que baseia-se em princípios absolutamente líquidos. A igreja não é do mundo, mas está nele!

Mas, o mundo sempre foi mundo. O que há de novo? Qual é o nosso contexto? Não nos dá a impressão que a Igreja está cada vez mais amalgamada, amoldada ao mundo? Quais são os valores das pessoas cristãs hoje? Diferenciam-se muito dos valores de pessoas não cristãs? Suas prioridades, em geral, não estão contaminadas com as prioridades do mundo?

Ao tempo que a sociedade, pelos recursos que dispõe, parece poder resolver todas as suas questões, ao mesmo tempo está errante. Busca uma resposta em fontes que não as satisfazem, mesmo que estas fontes sejam as mais questionáveis, do tipo das denominações neopentecostais, cultos esotéricos, filosofias orientais, dos conselhos e auto-ajuda, espiritismo, cultos afro-brasileiros, entre outros. Ao tempo que somos uma população, vivemos a solidão, somos aborrecidos por qualquer causa, ansiosos, deprimidos, pressionados pela culpa.

A boa elaboração do culto é aquela que faz uma ponte sobre o abismo que separa o mundo afundado pecados , por isso, carente da graça de Deus, do Deus que "amou ao mundo tanto que deu o seu filho unigênito para que, todo o que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3.16). Nesse sentido, quando o pastor elabora o sermão, por exemplo, o pensamento central mostra o pastor face ao ensino principal do texto e, quando elabora o Tema da mensagem, temos o pastor proclamando esse conteúdo central para o povo de Deus. Quando elabora a liturgia, o convite à confissão dos pecados procura olhar profundamente para cada ovelha ferida, maltratada, machucada pelos seus pecados, e visa busca-la, recuperá-la, confortá-la, “como se o próprio Cristo tratasse pessoalmente com ela” (Catecismo Menor, Ofício das Chaves).

Desta maneira, a liturgia bem elaborada serve para alcançar o homem, cujo contexto de vida é o complexo e convulsionado, com suas demandas e carências, e colocá-lo diante do Salvador, que o serve. Não podemos, no sermão e liturgia, nos contentar em dar conselhos faltos de fundamento, orientações nada cristãs, com uma lista de tarefas do tipo: "faça você mesmo", um evento que mexa apenas com a emoção e que não alimenta e não prove sustento. "A fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo" (Rm 10.17). A palavra de Cristo é viva, poderosa. Assim, o sermão e a liturgia, todo o culto, precisam colocar o homem diante do Salvador, que o serve em lei e evangelho.

Como as pessoas são trazidas a Cristo? Como são consoladas? Apenas pelo evangelho. O único poder que o ministro da palavra dispõe é o evangelho. Somente assim, elas são perdoados e a terapia escatológica final é recebida, o destino eterno é garantido, as ansiedades aliviadas, o desespero é transformado em esperança e o egoísmo é transformado em serviço.

O ministério eficaz depende unicamente dos meios da graça. Por Isso, ao elaborar o sermão e entregá-lo , o pastor deve poder dizer: Assim diz o SENHOR. E, ao elaborar a liturgia, o pastor deve ter a tranquilidade de não ter promovido um espetáculo, um entretenimento, uma sessão de auto-ajuda; mas que, pela palavra e sacramentos, colocou as ovelhas o Bom Pastor Jesus diante do Supremo Bom Pastor das suas almas.

O pastor deve ter imenso cuidado para não adotar métodos, estratégias, maneiras de agir, truques, tentativas de obter sucesso e notoriedade, sem questioná-los e avalia-los diante da palavra de Deus. A justificação é santificação vem somente pela administração fiel da Palavra e sacramentos. O que normatiza o ministério e nossas ações nele é a Escritura. E, o que é a Escritura? É o registro de Deus da sua obra da redenção no Cristo crucificado. O apóstolo Paulo resumiu de forma magistral do que devemos nos ocupar. Ele disse: “Porque decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1 Co 2.2).

Pregar a palavra de Deus, do púlpito ou do altar, é mais que sociologia, filosofias. É, isto sim, servir de despenseiro do SENHOR (1 Co 4.1). Esse privilégio, ele concede aos seus ministros. Eis porque, as Escrituras Sagradas dizem que “Quem almeja ser pastor, almeja obra excelente” (1 Tm 3.1).

 

 

2 – CUIDANDO DE PESSOAS NA BOA ELABORAÇÃO DO CULTO

 

Em tempos corridos, nos quais as tarefas pastorais são as mais variadas, somos diariamente envolvidos em atividades que consomem não apenas nosso tempo, mas o vigor, a capacidade de parar e pensar. O advento do smartphone nos prendeu ainda mais num ativismo incessante. Estamos, o tempo inteiro, atendendo chamadas, conferindo os grupos de whatsapp, respondendo a demandas que, em muitos casos, penso que absolutamente não dizem respeito às nossas prioridades, mas que estão escancaradas à nossa frente e urgem por resposta.

Nosso dia a dia envolve visitas, aconselhamentos, atendimentos à pessoas em casa, nos hospitais, a representação da Igreja nos órgãos públicos, a inserção da congregação na comunidade local. Tudo isso nos envolve e nos gasta num frenesi intenso.

Por detrás dessa cortina, quase sempre reluzente, está um pastor que quase não tem tempo para sua devoção e leitura diária da palavra, não acha boa ocasião para “entregar-se à oração” (Atos 6.4). O que dizer do tempo necessário para preparo e elaboração dos estudos bíblicos nos grupos, nos departamentos, para as devoções nas reuniões de diretoria, o acompanhamento da Escola Bíblica Dominical, o preparo para a instrução de confirmandos e, por fim, a elaboração do sermão e o preparo do culto?

Somos “empurrados”, por fidelidade ao nosso salvador, à busca dos afastados, ao aconselhamento dos problemáticos, à resposta e solução dos problemas do relacionamento interpessoal , das crises familiares das ovelhas de Jesus.

No entanto, todas estas coisas não devem soterrar o maior momento do cuidado pastoral que acontece no culto. Se, nos atendimentos da semana tivemos a oportunidade de curar pessoas individualmente, no culto temos a oportunidade de atender às demandas da congregação que se reúne para também receber a cura das suas feridas, pelo remédio do evangelho.

É na liturgia, com tudo o que acontece no culto, que o pastor poderá tratar as feridas das ovelhas de Jesus e, por isso, sua elaboração precisa de atenção prioritária, cuidadosa, fiel.

W.A. Clebsch, em sua obra Pastoral Care in Historical Perspective, aborda quatro aspectos do cuidado pastoral: Curar, sustentar, orientar, reconciliar. É evidente que pessoas que estão vivendo momentos especiais na sua vida precisam da atenção individual, particularizada, do pastor. No entanto, no culto temos o privilégio de fazê-lo diante do povo de Deus reunido. Ali também estão ovelhas que precisam ser curadas, alimentadas, orientadas, reconciliadas.

J.A. Jungmann, na sua obra “Pastoral Liturgy”, diz que “Por séculos, a liturgia, ativamente celebrada, tem sido a forma mais importante de cuidado pastoral”. Além desse aspecto coletivo, a celebração da liturgia servirá como modelo e fonte para que o pastor administra palavra e sacramentos às necessidades individuais, quando o mesmo for necessário. O texto do sermão e sua elaboração ao longo da semana, pode servir de base para um bom diálogo com aqueles que precisam de atenção particularizada. A confissão de pecados e a absolvição, elaborados para o culto da Congregação reunida, irá oferecer excelentes nutrientes para o diálogo com uma ovelha ferida e magoada. O cântico do Gloria, irá auxiliar aqueles que jubilam e celebram a enaltecer o Deus Triuno pela sua obra da Criação, Redenção e Santificação. Os hinos do nosso hinário, com sua magistral poesia, seu conteúdo absolutamente bíblico confessional, suas melodias que encantam as pessoas, levam muito consolo e conforto aos que sofrem das mais variadas mazelas ocasionadas pelo pecado, assim como elevam a congregação na adoração ao Salvador, por causa dos benefícios que lhe foram conquistados. A mensagem cristã em geral e, a pregação da Reforma Luterana, em particular, alcançaram, naqueles começos, mais repercussão pelos hinos de Lutero e seus colaboradores, do que pelos seus sermões. Por mais que há muita música cristã boa e de alta qualidade fora dos arraiais luteranos, o nosso Hinário Luterano deveria ser sempre a base para todo o canto e a música da Igreja.

Segundo Norbert Muller e George Kraus “A liturgia não é uma alternativa ou um obstáculo ao cuidado pastoral, mas é o principal cimento que junta os cristãos de todos os tempos à fonte do seu cuidado: Cristo” (P. 86).

Quando elaboramos criteriosamente a liturgia, pensamos em trazer o serviço de Deus ao seu povo reunido na Igreja. Nossas ordens, contidas nos hinários e agendas litúrgicas, não estão aí para serem uma imposição ou regra imutável; mas que nos servem de valiosíssimo modelo e ordem, a fim de que possamos conservar a riqueza das verdades bíblicas e comunica-las ao povo de Deus.

Talvez o nosso problema seja a compreensão da liturgia como um adiáforo, no sentido mais depreciativo ao qual o termo pode ser considerado, como algo que se pode pegar ou largar ao prazer da ocasião. Isso tem contribuído imensamente para que o culto e, em especial, a forma litúrgica, assuma cada vez menos os traços da liturgia tradicional da Igreja Cristã, despreze a sua herança profunda e rica, e venha a assumir feições renovadas, avivadas, como as denominações à nossa volta se expressam.

O contrário disso é verdade: No culto, nós nos reunimos para receber as dádivas de Jesus na Palavra e Sacramentos. Ele nos convida e nos serve de maneira rica e maravilhosa nos meios que ele escolheu. No culto, ele nos faz pensar nos céus não de forma abstrata; mas, real, concreta, pois ele já está aqui no evangelho que nos é servido.

Deus não precisa do nosso culto, mas nós precisamos do Seu serviço, sua presença, sua dádiva do perdão, vida e salvação. Nesse sentido, precisamos pensar no culto mais como serviço de Deus como o lugar onde vamos fazer coisas, desenvolver tarefas. Nossos convites para o culto precisam exalçar cada vez mais os feitos de Deus – precisam focar cada vez mais no que ele fez e continua fazendo em nós, do que naquilo que eventualmente podemos fazer. Tudo o que fazemos no culto é receber essas dádivas maravilhosas e responder ao serviço de Deus por nós, e isso nos é proporcionado quando se trabalha árdua e qualitativamente para que o culto não seja um mero entretenimento, ou um evento que mexe com as emoções, que permite que as pessoas saiam da Igreja vazias, inconsoladas, desorientadas e sem esperança; ao contrário, “Deus quer ser conhecido e cultuado de forma tal que dele recebamos benefícios, e os recebamos em razão da sua misericórdia”.

 

Conclusão

O conceito mais puro de liturgia é o que Jesus faz pelo seu povo quando ele o reúne nos momentos de culto público. As Escrituras nos dizem que Jesus se revela na Palavra, no Batismo e Santa Ceia. A Palavra, o Batismo e a Santa Ceia tem sido cuidadosamente proclamados e administrados pela Igreja de Cristo, através da sua forma litúrgica. O princípio lex orandi, lex credendi , que estabelece um relacionamento estreito entre o culto e o que se crê, serve para nos nortear a fim de que manifestemos claramente, em nossos cultos, o que, de fato, cremos. Mais do que  através de escritos confessionais ou manuais de dogmática, a doutrina entra e transforma a vida das pessoas quando elas se reúnem para cultuar e ouvir a palavra de Deus proclamada, cantada e orada. O culto cristão precisa necessariamente ser uma manifestação clara, uma amostra límpida da sua pureza doutrinária.

Para que isso aconteça, faz-se necessário um constante estudo da nossa liturgia a fim de que toda a sua riqueza seja ensinada e vivida na Igreja hoje, face às mais diversas formas de cultos em prática hoje. Não importa se o culto promove um inebriante espetáculo, e se ele envolve os frequentadores, mexendo com suas mais profundas emoções e sentimentos, se ele não servir à proclamação clara da Palavra de Deus, na correta distinção Lei e Evangelho, e se não tiver seus holofotes na administração correta dos Sacramentos do Santo Batismo e da Santa Ceia, continuará sendo um culto do homem para o homem, que não oferecerá nada mais que entretenimento, cujos efeitos passam assim que os frequentadores deixam a porta da Igreja e retornam às suas casas.

Por outro lado, não importa quão difíceis sejam os nossos hinos, quão destreinado seja o nosso organista, quão fraco o nosso cantar, Deus está presente na liturgia, onde a Sua Santa palavra é proclamada clara e puramente e os Santos Sacramentos são administrados como Jesus Cristo os instituiu.

É claro que, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo não desceu sobre os discípulos, lhes entregando uma cópia impressa da liturgia histórica da Igreja.  A Igreja Cristã adora ao Senhor como o povo de Deus faz desde o começo dos tempos: Sendo servida pela bondade perdoadora de Deus, firmada nas promessas da salvação em Cristo Jesus, como estas são reveladas no evangelho.

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Explicação

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